sábado, 30 de junho de 2012
Autor: desconhecido. Recebido pela Internet.
Volta e meia nos perguntam a respeito de uma suposta grande perda de
fiéis por parte da Igreja Católica.
Essa perda existe mesmo? Devemos nos preocupar com isso? Por quê?
Poucas semanas após ser eleito Papa (abril/2005), numa de suas
primeiras aparições públicas, Bento XVI ouviu de um jornalista a
seguinte pergunta: “O senhor está preocupado com a perda de fiéis pela
Igreja nos últimos anos?”. Consta que o Sumo Pontífice encarou seu
interlocutor com firmeza e respondeu calmamente: “A Igreja não perdeu
nenhum fiel. Aqueles que se foram nunca foram fiéis católicos
realmente. Não se pode perder o que nunca se teve. Os que deixaram a
Igreja eram indecisos, curiosos ou pessoas que estavam apenas
‘cumprindo uma obrigação’ passada por seus pais ou avós. Os que vêm e
vão não pertencem ao Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja na Terra.
Da mesma maneira, os que são católicos, mas ainda não estão na Igreja,
infalivelmente chegarão ou retornarão a ela no devido tempo. A Igreja,
Casa e Família de Deus, surgiu como um pequeno grupo; não importa a
quantidade, e sim a qualidade dos seus filhos, como cristãos
conscientes e santificados”.
_______A resposta causou admiração. Alguns entenderam a coerência na
resposta do Papa e passaram a admirá-lo a partir dali. É bem possível
também que outros tenham se escandalizado, imaginando que fora uma
afirmação presunçosa. Mas os verdadeiros católicos, – exatamente
aqueles a quem o Pontífice se referiu, – compreenderam bem e
perceberam, naquela ocasião, que este seria um grande Papa, um líder
enviado pela Providência Divina a um mundo complicado, num momento
delicado. João Paulo II era respeitado pelo mundo todo, até por
muçulmanos. Alguns esperavam que sua morte causaria um esmorecimento,
mas as Missas presididas por Bento XVI reúnem ainda mais fiéis que as
de João Paulo, segundo dados oficiais do Vaticano.
_______A afirmação de Bento XVI é realista. Podemos tomar um exemplo,
para efeito de comparação: imagine uma pessoa que visita a sua casa.
Essa pessoa pode frequentar a sua residência ou, por qualquer motivo,
até morar nela por algum tempo; mas depois retoma o seu próprio
caminho e se vai. Essa pessoa, por ter frequentado a sua casa, faz
parte da sua família? Basta estar junto a uma família para fazer parte
dela? Não.
_______São muitos os que frequentam a Igreja por algum tempo:
“assistem” às Missas e até ajudam em algum grupo ou pastoral. Depois
se indispõem com o padre ou com algum membro da comunidade e vão
embora sem olhar para trás. Não era por Cristo que estavam ali.
Estavam ao lado das pessoas, mas não estavam verdadeiramente unidas a
essas pessoas, e muito menos a Deus. Não eram irmãos, nem amigos; eram
“conhecidos”. Quando um conhecido se sente contrariado, ele se vai,
porque não há ligação. Entre verdadeiros irmãos é diferente.
Principalmente quando são irmãos não por laços de sangue, mas de alma.
Irmãos porque comungam da mesma fé, da mesma história, porque creem no
mesmo Deus e nos mesmos valores, têm uma mesma missão e compartilham
dos mesmos princípios. Caminham juntos e unidos, não para “agradar” um
ao outro, nem para “aparecer” ou se sociabilizar apenas, mas porque
creem em Algo Maior, que é seu Deus e Pai. Amam esse Deus e sabem que
Ele é a Fonte da Vida e de todas as Graças. Não abandonam sua casa por
nada.
_______Se alguém caminhou junto com o Povo de Deus por um tempo, mas
nunca comungou dessa União sagrada de fato, e de repente começa a
frequentar outra “igreja”, e logo passa a difamar a Igreja Católica,
este é um “fiel” que a Igreja “perdeu”? Não. São pessoas que nunca
aprofundaram sua fé, mas ao integrar outra comunidade são rápidos em
afirmar que “encontraram Jesus” por lá. Que bom seria se de fato
encontrassem Jesus, porque os verdadeiros católicos já o encontraram
há muito tempo.
_______Há um exemplo curioso num fórum de discussão evangélico da
internet. Um participante, autodenominado “Mehid”, deixa o seguinte
depoimento: “Meu vizinho dá testemunhos nas igrejas evangélicas, se
dizendo ‘ex-católico’, mas eu nunca o vi na igreja católica, em
celebração alguma! Vejo ‘crentes’ dizendo barbaridades, usando sempre
aquela afirmação: ‘quando eu era católico...’. Mas a minha tia assiste
ao programa da Igreja Mundial, e ela disse que muitas pessoas vão dar
testemunhos e citam outras igrejas evangélicas, justificando que não
se sentiam bem nelas, até entrar na Mundial, e aí tudo ficou lindo nas
suas vidas. Mas agora lá é proibido citar outras igrejas evangélicas,
porque as citadas começaram a reclamar. Só da católica pode falar”.
_______“Então, muitos dizem que saíram da Igreja Católica porque não
encontraram Jesus lá, mas eles entram numa igreja evangélica e depois
pulam para outra. Se entram numa igreja evangélica porque Jesus está
lá, por que saem dessa igreja e pulam para outras igrejas? Será que
Jesus pula de igreja em igreja, e as pessoas vão pulando com ele? Se a
errada é a católica, por que quando a pessoa ‘se converte’ fica
pulando de igreja, feito macaco sem galho?”.
_______Seria engraçado, se não fosse triste. Por isso, católicos, não
nos preocupemos: se um dia formos a minoria, seremos minoria com
Cristo.
domingo, 8 de abril de 2012
A MANSÃO DOS MORTOS
Bruno Glaab
Introdução:
Com o presente estudo vamos abordar um dito de nosso Credo: “Desceu à Mansão dos Mortos”. Como texto base de nosso estudo vamos analisar 1Pd 3,19-20. Em relação com este texto, veremos outros textos que, até certo ponto fazem eco com o texto referido. Veremos como habitualmente se entende esta doutrina, em nosso catecismo, no discurso do Papa e num estudo exegético do referido texto em autores que analisam o mesmo texto.
1) Bases fundantes: 1Pd 3,18-20; 1Pd 4,6;
Com efeito, também Cristo morreu uma vez pelos
pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Morto na carne,
foi vivificado no espírito, no qual foi
também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora,
nos dias de Noé, quando Deus, em sua longanimidade, contemporizava com eles,
enquanto Noé construía a arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito, foram
salvas por meio da água (1Pd 3,18-20).
Eis que o evangelho foi pregado também aos mortos, a fim de que sejam julgados
como os homens na carne, mas vivam no espírito, com Deus (1Pd 4,6).
2) Catecismo da Igreja Católica (CIC)
O CIC nos diz: “Desceu aos infernos”, “Morada dos mortos”,
“Profundezas da morte” (CIC, 632-634). Ao descer aos infernos Jesus teria
resgatado aqueles que jaziam mortos, mas não contemplavam a visão de Deus:
“São precisamente essas almas santas, que esperavam o
seu Libertador no seio de Abraão, que Jesus libertou ao descer aos infernos.
Jesus não desceu aos infernos para ali libertar os condenados, nem para
destruir o Inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido”
(CIC 633).
Desta forma, segundo o CIC, a ação salvífica de Jesus se
estendeu a todos os seres humanos e, de todos os tempos. “O Cristo morto, na sua alma unida à sua
pessoa divina, desceu à Morada dos Mortos. Abriu as portas do Céu aos justos
que o haviam precedido” (CIC 637).
3) Bento XVI
Bento XVI, falando sobre o assunto, diz:
Ele encontra Adão e todos os
homens que esperam na noite da morte. À sua vista parece até ouvir a oração de
Jonas: “Clamei a vós do meio da morada dos mortos, e ouvistes a minha voz” (Jn
2,3). O Filho de Deus na encarnação fez-se uma só coisa com o ser humano – com
Adão. Mas só naquele momento, em que
cumpre o extremo ato de amor descendo na noite da morte, Ele cumpre o caminho
da encarnação. Com a sua morte Ele leva Adão pela mão, leva todos os homens
em expectativa para a luz.
Contudo, agora, pode-se
perguntar: Mas o que significa esta imagem? Que novidade realmente aconteceu
ali através de Cristo? Sendo a alma do homem por si própria imortal desde a
criação, qual foi a novidade que Cristo trouxe?
Sim, a alma é imortal, porque o homem de forma
singular está na memória e no amor de Deus, mesmo depois da sua queda. Mas a
sua força não basta para elevar-se até Deus. Não temos asas que poderiam
levar-nos até aquela altura. Porém, nada pode contentar o homem eternamente, se
não o estar com Deus.
Uma eternidade sem esta união com Deus seria
uma condenação. O homem não consegue chegar ao alto, mas deseja-o: “Clamei a
vós…” Só o Cristo ressuscitado pode
elevar-nos até à união com Deus, onde nossas forças não podem chegar.
Ele carrega realmente a
ovelha perdida sobre os seus ombros e a leva para casa. Vivemos sustentados
pelo seu Corpo, e em comunhão com o seu Corpo alcançamos o coração de Deus. E
só assim a morte é vencida, somos livres e nossa vida é esperança. (http://blog.
opovo.com.br/ancoradouro/jesus-desce-a-mansao-dos-mortos-por-bento-xvi/)
4 - Pré-Compreensão
Certamente estamos diante de um
texto misterioso, ainda não devidamente esclarecido pela exegese bíblica.
Segundo alguns autores, 1Pd 3,18-22 seria um hino litúrgico. O s vv.18-22 não
seriam originais, pois misturam prosa e poesia (THEVISSEN, 1999, p.63).
Tradicionalmente se costuma
pregar que, descendo Jesus ao Xeol/Hades[1],
teria oferecido sua graça salvífica também àqueles que viveram antes da
encarnação do Verbo, ou que não conheceram a Jesus, aqui representados por
aquelas pessoas desobedientes que viveram nos tempos da construção da arca de
Noé. Inclusive, esta é também a visão do Catecismo da Igreja Católica.
A proclamação de Cristo aos espíritos encarcerados,
que tinham sido desobedientes nos dias de Noé (1Pd 3,19), significa que sua
vitória foi aplicada àqueles que viveram e atuaram no tempo do Antigo Testamento.
Tal afirmação contém elementos imaginários, mas representa uma intuição cristã
de que a vitória de Cristo afetou não somente aqueles que o seguiram
temporariamente, mas também os que o precederam – uma universalidade temporal
como parte da teologia de que todos são salvos por intermédio de Cristo (BROWN,
2004, p.941).
Imaginava-se, então, que os mortos possuíssem uma existência
subterrânea, no Xeol/Hades. Lá estavam todos os desobedientes, representados
pelos desobedientes dos tempos de Noé. A estes, Jesus foi pregar a
possibilidade do arrependimento, transformando o Hades em campo missionário
(CHAMPLIN, 1983, p.147). Os rabinos judaicos pregavam que os desobedientes do
dilúvio eram a pior classe. Não mereciam nenhuma comiseração. Significavam perda
total. Segundo 1Pd 3,19-20 Jesus supera estas visão estreita do judaísmo
rabínico (MUELLER, 1988, p.211).
Mas, de acordo com a tradição comum, fica uma dúvida: o que Jesus teria
feito na sua descida à mansão dos mortos? Alguns autores supõe duas
possibilidades:
1)
Razões salvíficas: a partir do século II se
entende que a descida à mansão dos mortos seria mesmo para dar uma segunda
chance aos que estavam no limbo. Anunciar que o céu agora estava aberto (Evangelho
de Pedro, Justino, Orígenes). No entanto, é estranho que nas referências feitas
à descida à mansão dos mortos, ou aos infernos, a partir do século II até III,
nunca se mencione 1Pd 3,19-20. Parece que os teólogos de então tenham outras
fontes para se referir à mansão dos mortos, ou infernos (MUELLER, 1988, p.208).
2)
Razões condenatórias: alguns questionam que a
pregação seja feita aos espíritos encarcerados e não aos mortos. Quem seriam
estes espíritos encarcerados? Anjos ou seres humanos falecidos? No contexto do
judaísmo tardio e do Novo Testamento, dificilmente espíritos seriam pessoas falecidas, mas, antes, anjos decaídos
(MUELLER, 1988, p.209). Poderiam ser os anjos que se comportaram mal com as
filhas dos homens (Gn 6,1-4) desencadeando o dilúvio. O v, 19 é difícil e tem
duas interpretações: a) espíritos
seriam seres sobre-humanos: anjos decaídos, b) espíritos seriam mortos, incrédulos, aqui representados pelos
incrédulos dos tempos de Noé, como também em 1Pd 4,6 (THEVISSEN, 1999, p.63).
Inclusive, havia a crença de que, depois da morte o ser humano continuaria a
viver em espírito, no céu, no inferno e no ar (MUELLER, 1988, p.209). Mas, se encararmos
a primeira hipótese, então perceberemos que esta visão de anjos decaídos está
muito presente na cosmovisão do Novo Testamento. Os maus anjos foram presos em
um poço sob a terra à espera do julgamento. Encontramos isto em alguns Apócrifos,
como no livro de 1 Henoc, como também em Jd 8, em 2Pd 2,10, e inclusive no Ap
12,7ss). Neste caso, Jesus teria ido até eles para lhes anunciar sua vitória sobre
as forças do mal e acabar com sua força satânica. Isto se parece com Jo 16,11,
onde a morte de Jesus representa o julgamento do príncipe deste mundo, bem como
Ap 12,5-13, onde a vitória de Jesus prostra satanás e seus anjos por terra
(BROWN, 2004, p.933). No livro de 1Henoc (apócrifo) se diz que o mesmo foi
encarregado para ir aos anjos decaídos e lhes anunciar sua condenação definitiva. Jesus seria o novo
Henoc que teria ido anunciar aos caídos, a condenação deles e a vitória total
de Cristo.
Cristo, portanto, é
apresentado como aquele que depois de sua ressurreição anuncia aos anjos
caídos, instigadores do mal neste mundo, sua vitória sobre o mal e a condenação
deles. Deste então os anjos maus perderam seu poder (THEVISSEN, 1999, p.66).
Os
espíritos, no contexto da época, então podem ser vistos como anjos, humanos,
demônios ou até seres divinos, mas no nosso contexto, deve-se supor, apesar das
dificuldades, tratar-se de seres humanos desincorporados (CHAMPLIN, 1983,
p.148). Porém, também os anjos decaídos são colocados nos abismos, onde
aguardam julgamento:
Com efeito, se Deus não
poupou os anjos que pecaram, mas lançou-os nos abismos tenebrosos do Tártaro[2],
onde são guardados à espera do juízo, nem poupou o mundo antigo, mas ao trazer
o dilúvio sobre o mundo dos ímpios... (2Pd 2,4-5).
Quanto aos anjos que não
conservaram o seu principado, mas abandonaram a sua morada, guardou-os presos em
cadeias eternas, sob as trevas, para o juízo do grande dia (Jd 6).
A
mesma figura se percebe em Ap 20,7 quando, depois de mil anos, o diabo é solto
de seu cárcere, ou ainda, na visão do rico opulento que, preso no Hades que contempla
o pobre no seio da Abraão (Lc 16,22ss). Mas neste caso, trata-se de um falecido
no Hades e não um anjo.
5 – Uma Cosmovisão dos tempos
Bíblicos
Uma hipótese apresentada por
Schökel (BÍBLIA do Peregrino, 2002, p. 2910), diz: nos tempos bíblicos
acreditava-se na existência do Xeol, isto é, um mundo subterrâneo e tenebroso
onde os mortos ficavam numa situação semelhante aos fantasmas de nossos
folclores. Aí se encontram os infiéis dos tempos de Noé. Jesus foi anunciar, também
a estes, a remissão, ou estender a eles a sua graça.
O julgamento dos infiéis era
entendido como acontecido numa masmorra: “Serão todos amontoados como
prisioneiros na masmorra e só depois de muito tempo terão de acertar as contas”
(Is 24,21-23). Mas aí ficam algumas perguntas:
-
O cárcere é lugar de espera?
-
Jesus anuncia a libertação ou a condenação, como já vimos acima?
-
Jesus os visita em estado intermediário, ou já glorificado? Seria entre a
sexta-feira e o domingo da páscoa, ou já seria o glorificado? Se pensarmos no
quarto evangelho, poderíamos pensar que a hora da glória de Jesus é na cruz (Jo
12,23ss). Neste caso já seria o glorificado. Mas 1Pd diz: “No qual também foi
pregar aos espíritos...”, ou seja, “morto na carne, vivificado no espírito” foi
pregar aos espíritos (1Pd 3,18). Fica uma questão: seria Jesus morto antes de
ressuscitar, ou já seria o ressuscitado?
-
Os espíritos respondem de forma positiva ou negativa a Jesus?
O Sl 22,30 nos diz: “Diante dele
se prostrarão as cinzas da tumba, em sua presença se curvarão os que descem ao
pó”. Em Fl 2,10 se diz: “Diante do nome de Jesus, todo joelho se dobre, no céu,
na terra e no abismo...” Mas este prostrar-se quer dizer aceitação, ou
reconhecimento de que estão definitivamente derrotados?
No Novo Testamento há vestígios
deste abismo, abaixo da terra, de onde Jesus teria remido os pecadores. Assim
em Romanos e em Efésios se aponta para o fato de Cristo descer aos abismos:
“Ou quem descerá ao abismo? Isto
é, para fazer Cristo levantar-se dentre os mortos” (Rm 10,7).
“Que significa subiu, senão que
também desceu às profundezas da terra? O que desceu é também o que subiu acima
de todos os céus, a fim de plenificar todas as coisas” (Ef 4,9-10).
Desta forma, Jesus retirou de lá
os santos mortos. Isto aparece no relato da morte de Jesus na cruz, quando os
mortos ressuscitam e vão passear na cidade de Jerusalém (Mt 27,52). Em Ef 4,8
se diz que com esta descida e subida Jesus retirou os mortos de seus túmulos:
“tendo subido às alturas, levou cativo o cativeiro”. Em Fl 2,9-10 Paulo afirma
que o despojado Jesus recebeu um Nome, diante do qual todo joelho se dobre,
inclusive os debaixo da terra. Isto parece um reconhecimento forçado. Em Cl
2,15 ele afirma que Jesus venceu os anjos abaixo da terra, despojando-os e
derrotando-os. “Na qual (cruz) ele despojou os Principados e as Autoridades,
expondo-os em espetáculo, levando-os em cortejo triunfal”.
O pensamento antigo imaginava o
mundo em três níveis: Os céus (morada de Deus), a terra (morada dos humanos) e
o mundo subterrâneo, debaixo do qual se localizava o Xeol/Hades. Ir ao Xeol,
muitas vezes é sinônimo de morrer. O
Xeol é um fosso, um lugar de trevas, vermes e pó” (MCKENZIE, 1983, p.972).
Um apócrifo, chamado Ascensão de
Isaías, em seu capítulo 9,16 diz que Jesus, antes de ressurgir, despojou o anjo
da morte, obrigando que os anjos de satanás tivessem de adorá-lo. Em livros
como Odes de Salomão, Melitão de Sardes, etc. se ilustra cenas como, Jesus,
antes da ressurreição abriu a porta da região onde estavam os mortos, que então
começaram a correr ao seu encontro. Derrotou o homem forte e resgatou as
pessoas aí cativas. O Evangelho de Nicodemos narra a descida de Jesus ao
inferno para resgatar os santos do Antigo Testamento (BROWN, 2004, p.931).
Na Revolta de Coré, Datã e Abiram (Nm 16) a terra se abre e os rebeldes
descem vivos para a região dos mortos com suas famílias e com seus pertences.
Eles foram para o terrível lugar das trevas. Este local tem semelhança com o
mito acádico da descida de Ishtar ao mundo inferior.
O mundo inferior é descrito como a casa escura...a
terra de onde não há retorno, da qual não há caminho para voltar, onde os que
entram são privados de luz, onde o pó é
sua comida e a lama sua alimentação, onde eles não veem a luz” (MCKENZIE, 1983,
p.972).
Assim sendo, o Xeol é a negação
total da vida. Javé não se lembra dos que estão no Xeol, nem os do Xeol lembram
de Javé. O Xeol é lugar onde também os poderosos são reduzidos ao nada. Até o
poderoso rei da Babilônia terá seu fim nele:
Nas profundezas, a mansão dos mortos se agita por sua
causa, prepara para você uma recepção; para você, ela desperta os mortos, todos
os dominadores da terra, e faz todos os reis das nações levantar-se de seus
tronos. E todos eles falam, perguntando: ‘também você foi derrubado como nós, e
ficou igual a nós?’ O esplendor dele foi atirado na sepultura, junto com a
música de suas harpas. Debaixo de você há um colchão de podridão, seu cobertor
é feito de vermes” (Is 14,9-11).
Aqui o Xeol é o fim de tudo, a destruição total, ou então, a
condenação ao aniquilamento. No judaísmo tardio esta concepção muda. Agora o Xeol
seria apenas um lugar de espera até a justificação. “Oxalá me guardasses
escondido no túmulo, até que passe a tua ira e marcasses um prazo para te
lembrares de mim” (Jó 14,13). Aqui talvez já esteja uma centelha de uma
esperança de remissão. Pois na origem, o Xeol não é somente o castigo dos maus,
mas também dos bons. Ele é a sorte de uns e de outros. No Novo Testamento,
muitas vezes, o Xeol, ou Hades é visto como lugar de castigo para os maus, e
mais tarde o conceito de Xeol evolui para a geena, lugar de fogo, ou para nós,
inferno. O rico opulento de Lc 16,19-31 está no Hades e isto é, no inferno. Mas
outras vezes, Xeol não é sinônimo de inferno, como é o caso do discurso de
Pedro no dia de Pentecostes:
Deus, porém, o ressuscitou,
livrando-o das dores do Hades. Não era mesmo possível que fosse retido em seu
poder; pois Davi diz a seu respeito: Sem cessar via o Senhor diante de mim,
está à minha direita, para que eu não vacile. Alegrou-se, por isso o meu
coração, e minha língua jubilou; minha carne repousará com esperança, porque
não deixarás minha alma no Hades. Nem deixarás que teu santo experimente a
corrupção (At 2,24-27).
Em 1Cor 15,55 se diz
que a morte (Hades) é vencida por Jesus. Nesta visão, ainda há esperança para
os que já morreram, bem como também em 1Pd 4,6 se afirma que Jesus foi pregar
aos mortos (CHAMPLIN,1983, p.148). “Para levar o tempo à sua plenitude: a de em
Cristo recapitular todas as coisas...” (Ef 1,10). Pedro recebe as chaves da
igreja e as portas do Hades não prevalecerão (Mt 16,16)[3].
O Ressuscitado tem as chaves do Hades (Ap 1,18). O Hades e a morte são muito
bem ilustrados no Apocalipse:
O mar devolveu os mortos que nele jaziam, a Morte e o
Hades entregaram os mortos que neles estavam, e cada um foi julgado conforme
sua conduta. A Morte e o Hades foram então lançados ao lago de fogo. Esta é a
segunda morte: o lago de fogo (Ap 20,13-14).
Esta
visão também é encontrada no judaísmo tardio. Vê-se o Hades como lugar
temporário, à espera do julgamento. O Ressuscitado é o vencedor do Hades (MCKENZIE,
1983, p.973). Xeol/Hades é um sinônimo de infernos
e não para o inferno (singular).
Assim, há os infernos (para onde Jesus desceu) e o inferno (sorte dos
condenados). O inferno dos condenados é sorte definitiva e os infernos, dos que
esperam a visita Jesus, quando desceu aos infernos, é lugar de espera pelo
julgamento definitivo.
As portas dos infernos para onde Cristo desceu
abriram-se para deixar escapar os seus cativos, ao passo que o inferno onde
desce o condenado se fecha atrás dele para sempre. Contudo, a palavra é a
mesma, não por um acaso nem por uma aproximação arbitrária, mas em virtude duma
lógica profunda e como expressão de uma verdade capital. Os infernos como o
inferno são o reino da morte, e, sem Cristo, haveria no mundo um único inferno
e uma única morte, a morte eterna, a morte na posse de todo o seu poder”
(DUFOUR, 1987, p.442).
Assim sendo, Jesus,
com sua descida aos infernos, destruiu a mansão dos mortos, ou os infernos, mas
não o inferno. Por isto existe uma segunda morte (Ap 21,8). Esta é a sorte dos
que não auferiram da graça de Cristo, ou seja, isto é o inferno. Pela descida
de Jesus aos infernos, estes deixaram de ser O Inferno. Os infernos são uma imagem do que seria o mundo
sem a presença de Cristo (DUFOUR, 1987, p.442). Sem Cristo, os infernos seriam
o inferno. Champlin, no entanto, julga que a salvação trazida por Jesus, não
termina na hora da morte, mas que ainda há esperança de salvação pela aceitação
do evangelho de Jesus depois da morte (1983, p.154).
6 -
Conclusão
É
difícil compreender o conceito de descida aos infernos e o que ele foi pregar
aos espíritos cativos, outrora desobedientes (1Pd 3,19s), contudo se pode ver
neste texto a morte de Jesus e de sua vitória sobre a morte, pois segundo o
discurso de Pedro, Deus o livrou das dores do Hades (At 2,24.31).
Seriam,
então, os versículos 19 e 20 uma resposta para todos os que não puderam ouvir o
evangelho em vida? Ou simplesmente se quer dizer que Jesus alcançou os piores
entre os piores? Ou ainda, a graça dele é total, isto é, literalmente para
todos?
Ele
subiu aos céus depois de ter descido à região dos mortos, o que talvez possa ser entendido como a solidariedade com todos os
seres humanos que precisam passar por esta etapa da existência humana (Ef 4,9s;
Rm 10,6-10), vivos e também mortos.
A obra da salvação do Senhor
é evento que compreende todas as esferas do mundo e tornou realidades juízo e
graça de Deus. Cristo é a Testemunha fiel, o mártir que apregoa a todos os
seres o feito da Redenção, também aos inimigos de Deus (SCHWANK, 1984, p.106).
A
morte de Cristo foi o triunfo sobre a morte (1Cor 15,26). Ele fez com que a
morte devolvesse seus mortos (Ap 20,13 e Mt 27,52s). Antes de Cristo, os
infernos eram definitivos, ninguém podia sair de lá. Mas, pela morte de Cristo,
primícias daqueles que morreram (1Cor 15,20-33) e primogênito entre os mortos
(Ap 1,5) as portas dos infernos se abriram.
Como,
no entanto, antes da vinda de Cristo, este já é prometido, o ser humano que
aceita a Deus já vê um raio de esperança em suas trevas infernais que se tornam
realidade com a morte de Jesus. Ao contrário, os que se fecham à graça dele,
serão condenados ao fogo eterno (1Ts 1,8; Ap 20,14s).
Entre
as muitas possibilidades aventadas, preferimos ficar com uma ideia de Thevissen
(1999, p.66): Descer à mansão dos
mortos, nada mais seria, do que o anúncio da vitória final de Jesus sobre o
mal. Os adversários de Cristo: homens incrédulos, como anjos maus, estão
definitivamente derrotados. O cristianismo não foi derrotado com a morte de
Jesus na cruz, mas esta serviu para proclamar a grande vitória.
Para
cristãos em crise (1Pd 3,13ss) como nos tempos de Noé cabia uma admoestação:
eles devem empenhar-se para evangelizar os adversários, os maus, pois assim
como nos tempos de Noé, também agora, Jesus não desistiu de nenhum deles (MUELLER,
1988, p.212).
BIBLIOGRAFIA
BÍBLIA , do Peregrino. São Paulo:
Paulus, 2002
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo testamento. São
Paulo: Paulinas, 2004
CATECISMO da Igreja Católica.
Petrópolis/São Paulo: Vozes/Paulinas/Loyola/Ave-Maria, 1993
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado – versículo por versículo. São
Paulo: Milênium, 1983, vol.6
DUFOUR, Xavier León. Vocabulário de Teologia Bíblica. Perópolis:
Vozes, 1987
MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo:
Paulinas, 1983
MUELLER, Ênio. 1Pedro – Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo
Cristão, 1988
SCHWANK, B. A Primeira Epístola de Pedro, Apóstolo. Petrópolis: Vozes, 1984
THEVISSEN, G. et al. As Cartas de Pedro, João e Judas. São
Paulo: Loyola, 1999, Col. Bíblica Loyola, Vol.7B
[1]
Xeol é palavra hebraica e Hades é o correspondente Grego.
[2]
Tártaro era a personificação do Mundo Inferior. Nele estavam as cavernas e
grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos
mortos, para onde todos os inimigos do Olimpo eram enviados e onde eram
castigados por seus crimes. Lá os Titãs foram aprisionados por Zeus (Júpiter),
Hades (Plutão) e Poseidon (Netuno) após a Titanomaquia. Na Ilíada, de Homero,
representa-se este mitológico Tártaro como prisão subterrânea 'tão abaixo do
Hades quanto a terra é do céu'. Segundo a mitologia, nele eram aprisionados
somente os deuses inferiores, Cronos e outros titãs, enquanto que os seres
humanos eram lançados no submundo, chamado de Hades (Wikipedia).
[3]
A nota a da Bíblia de Jerusalém a Mt 16,18, diz: “Quanto a Hades (hebr. Sheol),
que designa a morada dos mortos cf. Nm 16,33+. Aqui, as suas portas, personificadas
evocam as potências do Mal que depois de terem arrastado os homens à morte do
pecado, os encadeiam definitivamente na morte eterna. Seguindo seu Mestre que
morreu, ‘desceu aos Infernos’ (1Pd 3,19+) e ressuscitou (At 2,27.31), a Igreja
deverá ter por missão arrancar os eleitos ao império da morte temporal e,
sobretudo, eterna, para condusi-los ao Reino dos Céus (cf.Cl 1,3; 1Cor 15,26;
Ap 6,8; 20,13).
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
LAS SEÑALES DE LOS TIEMPOS
Mi padre era un arameo errante que bajó a Egipto y residió allí como inmigrante siendo pocos aún, pero se hizo una nación grande, fuerte y numerosa. Los egipcios nos maltrataron, nos oprimieron y nos impusieron dura servidumbre. Nosotros clamamos a Yahveh Dios de nuestros padres, y Yahveh escuchó nuestra voz; vio nuestra miseria, nuestras penalidades y nuestra opresión, y Yahveh nos sacó de Egipto con mano fuerte y tenso brazo en medio de gran terror, señales y prodigios. Nos trajo aquí y nos dio esta tierra, tierra que mana leche y miel (Dt 26, 5-10).
Al atardecer dicen, Va a hacer buen tiempo, porque el cielo tiene un rojo de fuego, y a la mañana,' Hoy habrá tormenta, porque el cielo tiene un rojo sombrío. ¡Conque saben discernir el aspecto del cielo y no pueden discernir las señales de los tiempos! ¡Generación malvada y adúltera! (Mt 16, 1).
Voy a evocar las obras del Señor, lo que tengo visto contaré. Por las palabras del Señor fueron hechas sus obras, y la creación está sometida a su voluntad. El sol mira a todo iluminándolo, de la gloria del Señor está llena su obra.No son capaces los Santos del Señor de contar todas sus maravillas, que firmemente estableció el Señor omnipotente, para que en su gloria el universo subsistiera. El sondea el abismo y el corazón humano, y sus secretos cálculos penetra. Pues el Altísimo todo saber conoce, y fija sus ojos en las señales de los tiempos.Anuncia lo pasado y lo futuro, y descubre las huellas de las cosas secretas. No se le escapa ningún pensamiento, ni una palabra se le oculta. Las grandezas de su sabiduría las puso en orden, porque él es antes de la eternidad y por la eternidad; nada le ha sido añadido ni quitado, y de ningún consejero necesita.¡Qué amables son todas sus obras!, como una centella hay que contemplarlas.Todo esto vive y permanece eternamente, para cualquier menester todo obedece. Todas las cosas de dos en dos, una frente a otra, y nada ha hecho deficiente. Cada cosa afirma la excelencia de la otra, ¿quién se hartará de contemplar su gloria? (Sir 42, 15-25).
El que con tantos esplendores de las cosas creadas no se ilustra, está ciego, el que con tantos clamores no se despierta, está sordo; el que por todos estos efectos no alaba a Dios, ése está mudo; el que con tantos indicios no advierte el primer Principio, ese tal es necio.
las nuevas señales del cielo y de la tierra, que son grandes y muy excelentes ante Dios y que por muchos religiosos y otros hombres son considerados insignificantes.
a los ojos de Dios hay algunas cosas muy altas y sublimes, que a veces son consideradas entre los hombres como viles y bajas; y hay otras que son estimadas y respetables entre los hombres, pero que por Dios son tenidas como vilísimas y despreciables.
Concluyendo, ser contemplativos es:
Como jadea la cierva, tras las corrientes de agua, así jadea mi alma, en pos de ti, mi Dios. Tiene mi alma sed de Dios, del Dios vivo; ¿cuándo podré ir a ver la faz de Dios? (Salm 42, 2-3).
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
O PURGATÓRIO
Divagações sobre o futuro
Frei Jerónimo Bórmida
Trad. Frei Bruno Glaab
Um Teologúmeno
Estamos diante de um dos pontos controvertidos no diálogo ecumênico. Karl Rahner aplicaria à doutrina sobre o purgatório a noção de teologúmeno, que é , antes de tudo, resultado e expressão do esforço para entender a fé.
Teologúmeno é uma formulação teológica que não equivale de modo imediato a uma proposição dogmática que obriga à fé, e não é necessário que o enunciado se distinga materialmente de uma tese de fé propriamente dita.
A doutrina oficial da Igreja não consta, nem pode constar somente de dogmas no sentido estrito, mas está composta sobretudo de uma série de proposições teológicas que, sem possuir uma absoluta obrigatoriedade de fé, ela tem sido generalizada e aceita na comunidade eclesial.
A revelação cristã se transmite sempre por meio de teologúmenos: fala em harmonia com o saber e as crenças do momento em que é pronunciada a palavra. A Bíblia somente é compreensível à luz da imagem do mundo que tem o destinatário da palavra; integra os conceitos, os valores, a imaginação, os paradigmas morais e intelectuais próprios de cada tempo e lugar. E o que a DV 13 chama a admirável condescendência da sabedoria eterna, para que conheçamos a inefável benignidade de Deus, e de quanta adaptação de palavra faz uso tendo providência e cuidade de nossa natureza. Porque as palavras de Deus expressadas com línguas humanas se tem feito semelhantes à fala humana, como em outro tempo o Verbo do Pai eterno, tomada a carne da debilidade humana, se fez semelhante aos homens.
A história da teologia equivale à gesta dos constantes câmbios dos teologúmenos. Este devir não significa que se reconheça um dia como errôneo o que antes se tinha por verdade absoluta, senão que supõe a lei da encarnação das afirmações à cambiante experiência histórica.
A doutrina da Escritura
Segundo o V Concílio de Latrão (1512-1517) Lutero afirma que o purgatório não pode ser provado pela Escritura Sagrada Canônica. Os polemistas católicos responderam multiplicando as provas de Escritura recorrendo a textos isolados de seus contextos em base a uma exegese acomodatícia, carregada de pré-juízos dogmáticos. Lemos em 2Mc 12,40-46 que nos cadáveres dos soldados mortos na batalha contra Gorgias se encontravam objetos do culto idolátrico, ato severamente proibido pela Lei. Judas espera que os soldados que tem morrido em defesa da religião e da pátria encontrem o perdão de deus e participem na ressurreição, para os quais faz uma coleta e manda oferecer um sacrifício pelo pecado no templo de Jerusalém.
Os defuntos justos esperam a ressurreição para a vida (2Mc 7,9-14), porém presumidamente no seio de Abraão. Embora os soldados incorressem em grave pecado de idolatria, Judas Macabeu opina que se trata de mortes em certo sentido martiriais, por isso ordena que se ofereça por eles o sacrifício expiatório. Paulo afirma em 1Cor 3,10-17 que os apóstolos terão de selecionar cuidadosamente os materiais que usam na edificação da igreja, pois a obra de cada qual será descoberta; se manifestará pelo fogo (v.13). aquele cuja obra resista ao fogo receberá a recompensa. Se sua pregação não resistir à prova, o apóstolo será salvo, porém como quem passa através do fogo (v.14-15).
Bento XVI, em 12 de janeiro de 2011, na catequese das quartas-feiras fala de Santa Catarina de Gênova, uma das referências místicas, ao falar do purgatório. A santa fala do caminho de purificação da alma até a comunhão plena com Deus, partindo de sua própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em contraste com o infinito amor de Deus. Não estamos, disse a santa, que o purgatório é um fogo interior, é um caminho de purificação da alma até a comunhão plena com Deus. O fogo, esclarece Bento, é o mesmo Cristo.
Um texto da escola rigorista de Shammai (metade do século Iº d.C.) afirma que: há no juízo três categorias de homens: uns são para a vida eterna; outros, os completamente ímpios, para a vergonha e opróbrio eterno; os médios (que não são nem de todo bons, nem de todo maus, e guardam um lugar intermédio) descem à Geena para ser esmagados e purificados; logo sobem e são curados. Mas além dos textos citados encontramos certas idéias gerais clara e repetidamente ensinadas na Bíblia:
1. Apenas uma absoluta integridade é digna de ser admitida à visão de Deus.
2. Não podemos negar a responsabilidade humana no processo da justificação, assim ser humano tem que envolver-se pessoalmente na reconciliação com Deus.
3. O homem tem que aceitar as consequências que se derivam dos próprios pecados.
É tão curioso como obscuro o texto de 1Cor 15,29 que alude a um rito de batismo pelos mortos, sem que Paulo esclareça o sentido deste rito, nem faz um juízo sobre ele. Em 2Tm 1,16-18 Paulo, vivo, faz uma súplica em favor de um cristão, chamado Onesíforo, que lhe ajudou em momentos difíceis e que, segundo todos os indícios, havia morrido, para que encontre misericórdia diante do senhor no dia do juízo. Estamos diante de um testemunho da primeira hora – as cartas pastorais – aonde já aparece a prática da intercessão de um cristão vivo (Paulo) por outro já falecido. Por último deve-se deixar bem claro que o tema do purgatório é compreensível no contexto da doutrina da graça e as discrepâncias ecumênicas partem de como se entendem a justificação e o perdão dos pecados.
História do Teologúmeno
Os testemunhos abundam em orações (litúrgica ou privadas) pelos defuntos, cobrem toda a tradição da Igreja, desde indicações das catacumbas e cemitérios cristãos até o presente. Desde os primeiros séculos era comum a prática da oração pelos mortos nas igrejas de Roma, África, Síria, Jerusalém. É de destacar a memória dos fiéis defuntos na celebração eucarística, atestada pelos padres antigos.
Tertuliano disse que o tempo que vai da morte até a ressurreição é uma época de cárcere, durante o qual a alma tem a oportunidade de pagar até o último centavo de sua dívida, libertando-se para a ressurreição. Clemente de Alexandria fala de uma transformação ascendente do homem que se vai transformando em um corpo com uma perfeição cada vez maior até que nele se realize o grau supremo da corporeidade pneumática, o pleroma, chegando então à consumação.
São Cipriano escreve na primeira metade do século III: uma coisa é não sair da prisão até pagar a última moeda e outra, receber sem demora, o prêmio da fé da coragem; uma, purificar-se dos pecados pelo tormento de grandes dores e purgar muito tempo pelo fogo... e outra, ser coroado em seguida pelo Senhor. A partir daí são freqüentes as refernãoencias ao purgatório, sobretudo em Santo Agostinho. No Ocidente influiu, na formulação do teologúmeno o desenvolvimento teológico da noção de satisfação, especialmente a partir de Santo Anselmo. Deus soberano absoluto não pode fazer uso de sua misericórdia sem exigir uma satisfação que só o sangue inocente de Cristo pode oferecer. Na Idade Média se dinstingue entre a culpa (reatus culpae) que Deus pode perdoar e a Igreja absolver e a pena (reatus poenae) que o transgressor carrega sobre seus ombros até pagar sua dívida com a sociedade e com Deus.
Os teologúmenos do Oriente receiam fortemente dos hábitos mentais e di vocabulário dos colegas latinos. Os gregos entendiam o purgatório como um mero estado, não como um lugar, não aceitavam a imagem de fogo, como se fosse um inferno temporal. Consideravam o purgatório como um estado de purificação, no qual os defuntos amadureciam para a vida eterna pelos sufrágios da Igreja, e não pela graça de uma sentença. Os orientais pensam a justificação em chave de divinização, que vai devolvendo ao homem a imagem de Deus por um processo paulatino de purificação.
Com a Reforma, o século XVI trouxe outro período crítico para a doutrina sobre o purgatório. Lutero, no princípio se limitou a assinalar que não se fala de purgatório nas Escrituras canônicas. Parece que no princípio seguiu crendo em sua existência, baseando-se principalmente na tradição patrística, retratando-se logo, porque a noção de purgatório contrasta frontalmente com a concepção luterana da justificação.
O purgatório põe em causa a suficiência da satisfação de Cristo e põe no homem a capacidade de operar, por si mesmo, a consumação do processo salvífico. Se a justiça de Cristo é superabundante e cobre com excesso os pecados mais graves, como admitir que o justificado ainda tenha que ser purificado, antes de seu ingresso no céu?
Trento alude ao purgatório só em um cânon do decreto sobre a justificação. Este cânon situa o tema dentro da temática do processo de remissão dos pecados e santificação do homem. No plano disciplinar Trento proíbe expor a doutrina do purgatório como questões inúteis, de questões sutis que não contribuem com a edificação, nem com a piedade do povo, e resultam em curiosidades e superstições, nas quais abundam os pregadores.
Em Roma existe um museu do purgatório, fechado ao público nos contextos do Vaticano II. Se exibem mostras macabras das marcas deixadas por almas atormentadas pelo fogo.
Teologias
É errôneo conceber o purgatório como uma espécie de inferno temporal. Mais do que em expiação, deve-se pensar em amadurecimento. No Vaticano II se fala de purificar-se e não de purgar ou expiar, deixando de lado o termo usado sistematicamente nos documentos anteriores do magistério. Estamos diante de uma troca semântica intencionada.
Não estamos diante de uma espécie de campo de concentração, um cárcere no mundo dos mortos onde o homem tem que purgar penas que se lhe impõem ao estilo dos sistemas carcerários que ainda hoje nos enchem de vergonha. Espero que no próximo século se fale dos cárceres como uma das abominações da humanidade, assim como espero que a teologia e a piedade se envergonhem de suas idéias acerca do purgatório.
Hoje os teólogos tendem a conceber esta purificação como a experiência subversiva do encontro com fogo purificador do rosto em chamas de Cristo (Ap 1,14 = Dn 10,6). O mesmo Jesus é o fogo que julga e purifica, que faz o homem, conforme ao seu corpo glorificado (Rm 8,29; Fl 3,21). A purificação não se realiza por algo, senão pela força transformadora do encontro com Jesus, que acrisola purificando-nos de todas as nossas escórias.
Santa Catarina de Gênova (séc. XV) dizia: “Eu não creio que depois da felicidade do céu possa haver outra felicidade que se possa comparar com a do purgatório... este estado deveria melhor ser ansiado do que temido, pois as chamas dele são chamas de indizível nostalgia e amor”.
Congar dizia que no purgatória seremos todos místicos, quer dizer, todos seremos penetrados pelo ardente e purificador amor de Deus que iluminará nosso amor para o último e definitivo encontro. A concepção geográfica do purgatório cede seu lugar a uma compreensão processual. É como um processo pessoal no qual a pessoa vai superando suas contradições, seus egoísmos, até aquele momento final do encontro com Deus. O purgatório é o amor que purifica. O sofrimento é o outro lado da medalha do amor. É o lado do coração que sofre por não ter correspondido ao amor apesar de haver sido continuamente amado.
Purificar as imagens
É necessário purificar toda a escatologia (morte, juízo, céu, inferno, reino de Deus). Temos que limpar as imagens da pregação e da religiosidade populares de imagens absurdas incompatíveis com a fé em Jesus e no Pai de Jesus. O Espírito que faz que chamemos a Deus de Abba não pode haver suscitado idéias de um Deus cruel e implacável que castiga e se vinga do pecado do homem.
A imaginação dos pregadores traumatizou os fiéis que se aterrorizavam diante dos suplícios do purgatório, uma espécie de galeria de torturas cósmicas com salas com frio insuportável, de metal em fusão, como um lago de azeite em ebulição.
Além do mais se confundia tempo com eternidade, se falava de anos, meses, dias... Quem morria com o escapulário do Carmo tinha a promessa que Maria o tiraria pessoalmente do purgatório, ao mais tardar, no sábado seguinte à morte. Não riam, ainda que corem, das crenças populares. Paulo é perfeitamente consciente de que não tem chegado à meta, que não é perfeito, porém continua sua corrida para conseguir alcançar a Cristo, ainda que na verdade foi Cristo Jesus quem alcançou a Paulo, antes. “Eu, irmãos, no entanto, não creio havê-lo alcançado. Mas uma coisa eu faço: esqueço o que deixei para trás e me lanço ao que vem pela frente, correndo até a meta, para alcançar o prêmio a que deus me chama desde o alto em Cristo Jesus. Assim, pois, todos os perfeitos tenhamos estes sentimentos, e se em algo sentis de outra maneira, também isto Deus lhes esclarecerá. Além disto, desde o ponto a que temos chegado, sigamos adiante” (Fl 3,12-16).
Paulo não fala de purgatório, senão de um processo de crescimento na perfeição que ele mesmo busca correndo, sem haver ainda alcançado. Espera que Deus, que começou a obra boa, a termine até o dia de Jesus Cristo. Paulo pede, em sua oração, que o amor dos filipenses siga crescendo cada vez mais em conhecimento perfeito e todo discernimento, conhecimento que avalia o melhor dos crentes para ser puro e sem mancha para o dia de Cristo. Os frutos da justiça não provém do esforço humano, vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus (Fl 1,6-11). O homem está sempre chamado à maturidade do varão perfeito na medida plena da idade de Cristo (Ef 4,13).
Quando oramos pelos defuntos deveríamos suplicar ao Senhor que conceda aos que estão morrendo uma decisão reta e clara por Deus, que tenham uma rápida maturação humana e divina para que, acrisolados pelo fogo de Cristo, possa, florescer totalmente na vida de Deus.
A Práxis de Jesus
É muito difícil os ditos e feitos de Jesus que aludam à necessidade de penitência na outra vida. Ao ladrão que lhe solicita, diz que hoje mesmo estarás comigo no paraíso (Lc 23,43). O único que exige à pecadora pública é que vá e não peque mais (Jo 8,11). Nas aparições do ressuscitado não encontramos uma só censura por suas traições. Os chama de moços e lhes prepara pescado nas brasas (Jo 21,5-9)... Poderíamos completar muitas páginas com estas atitudes de Jesus. É certo que disse a Judas que seria melhor não ter nascido (Mt 26,5-9)... É muito duro com os dirigentes do povo, os chama de lixo condenado ao fogo, na Geena... O texto mais duro se refere ao juízo das nações que fará o Filho do Homem (Mt 25): “quando o Filho do Homem vier em sua glória acompanhado de todos os anjos, então se sentará em seu trono de glória. Serão congregadas diante dele todas as nações... O filho do Homem julgará a todas as nações, quer dizer, a todos os judeus e a todos os pagãos, os adoradores de ídolos... Não julgará pela observância da Lei e da pureza do culto: E ele separará uns dos outros como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Porá as ovelhas à direita e os cabritos à sua esquerda. A estes, lhes dirá: ‘apartai-vos de mim, malditos, ao fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25,31ss). São malditos os que não trataram aos pobres, aos despidos, aos presos, aos enfermos, os últimos da escala humana. São benditos os que foram solidários com o Filho do Homem sacramentado nos mais despossuídos de bens, de saúde, de dignidade. É a única vez que Jesus fala de fogo eterno em um inferno diabólico.
Não há nenhuma penitência, só festa para o filho que volta arrependido depois de haver caído na última das depravações (leiam-se as três parábolas da misericórdia de Lc 15). É o mesmo pai que provê todo o necessário para participar no banquete do reino, comida, vestidos, jóias...
Jesus, amigo dos publicanos, pecadores, prostitutas faz o que aprendeu da conduta de seu Pai deus. Eu os desafio a reler e voltar a ler o evangelho para ver se encontram alguma alguma citação que sustente o teologúmeno do purgatório.
A disciplina penitencial
Durante os séculos II e III a Igreja cresce, se expande numérica e geograficamente e contemporaneamente se nota uma diminuição na santidade de seus membros. Hermas é o primeiro que afronta o tema da conduta dos cristãos pecadores. Disse que é possível o arrependimento e a penitência. Anuncia, portanto, a segunda penitência da qual exclui os apóstatas e blasfemos contra o Senhor e os traidores dos servos de Deus. Precisa que esta oportunidade de uma segunda penitência depois do batismo é uma só, e que não deve tornar-se pretexto nesta ulterior possibilidade de tomar o pecado leve.
Paulatinamente se introduz a questão sobre a possibilidade ou não da reconciliação de certos pecados, e em particular os citados pela famosa tríade montanista: idolatria, homicídio e adultério. A controvérsia foi muito áspera e grave.
O mesmo Jesus afirma que se perdoará a todos os filhos dos homens, os pecados e blasfêmias, por muitas que estas sejam. Logo prossegue com uma afirmação, sobre a qual os Padres e os exegetas não se põem de acordo: o que blasfema contra o Espírito Santo, não terá perdão nunca. Será réu de pecado eterno (Mc 3,28-29). Se um irmão pecador não faz caso da Igreja, deve-se considerá-lo como gentio e como publicano (Mt 18,15-17). Paulo pede aos coríntios para não se juntarem com alguém que se chama cristão e é libertino, ganancioso, idólatra, difamador, bêbado ou bandido. Com alguém assim não se deve nem sentar à mesma mesa. Eliminem do grupo de vocês os malvados (1Cor 5,9-13).
A Primeira Carta de João, a epístola de Deus amor, afirma que se deve orar pelo irmão pecador, porém há um pecado que acarreta a morte. Não me refiro a este quando digo que rezem (1Jo 5,16-17).
Os pecados leves, ou também chamados cotidianos, se perdoam mediante a oração pessoal e comunitária, o jejum, as esmolas, as boas obras, ou por outras obras de piedade. A práxis penitencial se reservava para os pecados mortais, também chamados delitos, crimes, pecados capitais, pecados maiores mortais, mais graves... cometidos depois do batismo eram um mal serio, profundo, que penetrava a toda a pessoa e que por isto exigia um esforço doloroso e prolongado de conversão. Toda a comunidade devia dar testemunho e garantia da seriedade deste esforço e da sinceridade da conversão.
Se a oração coletiva da comunidade era insubstituível para os próprios membros caídos em pecado e sujeitos à penitência, mais apreciada era ainda a oração de quem havia derramado seu próprio sangue e havia sofrido por ser cristão.
Seguindo o exemplo de Estêvão, que rezou por seus próprios perseguidores, os mártires rezavam, também, pelos irmãos na fé caídos no pecado, intercedendo para que tivessem a possibilidade de voltar a entrar na comunidade. Desde os primeiros decênios do século III, a oração e a intercessão dos mártires é usada pelos penitentes para abreviar o tempo de sua permanência no grupo dos penitentes. Pela intercessão de um mártir da comunidade o bispo concedia ao penitente a indulgência, quer dizer, lhe perdoava toda, ou parte de sua permanência na ordem dos penitentes.
Tudo se pode fixar com o preço justo
Pouco a pouco vai se apossando das igrejas do Império Romano um critério de valoração jurídica do pecado que passa a ser transgressão de uma lei, mais que como uma ferida para na comunidade. No século IV a paz constantiniana e a proclamação do cristianismo como religião de estado põem em crise a prática penitencial, uma vez que os convertidos afluem em massa a integrar-se a igreja, movidos por motivos políticos e econômicos e sem passar pelo catecumenato. A Europa é invadida pelos bárbaros que impõem suas próprias concepções em matéria legal e de ressarcimento dos danos. Sempre é possível estabelecer uma soma de dinheiro a modo de arranjo entre as partes e pondo com isto fim ao pleito que há entre o ofendido e o ofensor. Para os germanicos cada delito tem seu preço. Aparecem, então, os chamados penitenciais, que são catálogos dos pecados em todas suas possíveis concretizações, inclusive as mais insólitas e estranhas. A cada pecado vai anexo uma penitência determinada e concretizada, indicada em mortificações, esmolas, peregrinações, jejuns, orações; a duração destas penitências é proporcional à valoração do pecado.
A penitência deixa de ser um ato público: o pecador confessa em privado, e o sacerdote aplica pena prevista para aquele pecado pelo penitencial. O pecador é absolvido tantas vezes quantas tem pecado, contanto que satisfaça as obras previstas nas penitências que hoje nos resultam muito curiosas. A título de exemplo:
Se um clérigo tem formulado o projeto escandaloso de ferir ou de matar seu próximo, jejuará durante seis meses a pão e água e se absterá do vinho e da carne; logo será autorizado a voltar ao altar (para oferecer a missa e comungar); O ladrão jejuará um ano (se é monge); O perjuro jejuará sete anos (se é monge ou clérico); o homicida (leigo) jejuará três anos a pão e água, sem levar armas e viverá em exílio. Depois destes três anos, voltará a sua pátria e se porá a serviço dos familiares da vítima, em substituiçãp que que foi assassinado. Assim poderá ser admitido à comunhão segundo o juízo do confessor. O leigo que se embriaga ou come e bebe vinho até o vômito, jejuará uma semana a pão e água. Quem mata por ódio ou por ganância a uma pessoa leiga, cumprirá quatro anos de penitência. O soldado que mata em guerra fará 40 dias de jejum. Quem beber vinho até o vômito, jejuará por 40 dias se for presbítero ou diácono; 30 dias, se é religioso; 12 dias, se é leigo. Quem trabalha em domingo, jejuará 7 dias.
As penitências previstas pelos pecados iam se acumulando até alcançar um número tão elevado de anos, que o pecador se encontrava na impossibilidade prática de cumpri-las. Por isto surgiram as equivalências ou comutações penitenciais. Alguns exemplos:
Comutação para um jejum de dois dias: recitar 100 salmos, umas 100 genuflexões, ou bem, 1500 genuflexões e 7 cânticos. Comutação por um jejum de um ano: passar três dias em uma igreja, sem beber, comer, nem dormir, totalmente nu, sem sentar-se; durante este tempo o pecador cantará salmos com os cânticos e recitará o ofício coral. Durante esta oração fará 12 genuflexões. Tudo isto, depois de haver confessado seus pecados diante do sacerdote e diante do povo. Outra comutação para o jejum de um ano: fazer 12 jejuns de três dias seguidos cada ano. Ou melhor, jejuar 100 dias a pão e água com a oração das horas.
Logo apareceu outra forma de comutação ou equivalência penitencial, ligada a sucedâneos sob a forma de multas, de celebração de missas, etc. Por exemplo: uma unidade monetária resgata 1 dia de jejum; o preço corrente de um escravo (homem ou mulher) resgata um ano de jejum; Vinte e seis moedas de ouro resgatam um ano de jejum; uma missa resgata sete dias de jejum; trinta missas resgatam um ano de jejum.
Esta introdução de dinheiro fez crise com os reformadores do século XVI. Um refrão alemão cantava que quando a moeda tinia na caixa, uma alma saltava do purgatório (so bald das Geld im Beutel klingt, eine Seele aus dem Fegfeur springt – assim que o dinheiro retine na caixa, uma alma salta do purgatório)[1].
Para uma valorização em termos econômicos tenha-se presente: 100 moedas de ouro dão direito a 120 missas; uma moeda de ouro dá direito a 2 missas; uma libra de ouro dá direito a 12 missas.
O Penitencial de Viena disse que: por sua conta o sacerdote poderá celebrar somente (sic) 7 missas ao dia; porém, se o pedem os penitentes, poderá celebrar quantas sejam necessárias, inclusive mais de 20 missas ao dia (sic). São Francisco prescreve, na Carta à Ordem: “Admoesto por isso e exorto no senhor, que nos lugares em que habitam os irmãos, se celebre só uma missa cada dia segundo a forma da santa Igreja. E se houver no lugar mais sacerdotes, contente-se cada um, pelo amor da caridade, em ouvir a celebração de outro sacerdote.
Neste contexto nascem mal as indulgências que se regem de fato por um cálculo matemático de penas e satisfação. A indulgência se pode obter por um ato piedoso (por exemplo, o canto da Salve rainha, a oração do Anjo do Senhor (Angelus), visitar uma igreja ou um altar, venerar as imagens ou relíquias de santos, etc.), ou por uma esmola em metálico (moeda) para construir ou restaurar igrejas, leprosários, escolas, pontes, caminhos e fazer obras de saneamento. Manda a primeira regra franciscana (cap.VIII): “os irmãos, se podem realizar, em favor destes lugares, outros serviços que não sejam contrários à nossa vida”.
Quando os papas lançam as cruzadas, asseguravam a entrada gloriosa na Jerusalém celeste aos que tomassem as armas para conquistar a Jerusalém terrestre. A esta graça papal se chamou de indulgência plenária, que supunha o estado atual de graça, quer dizer, a confissão sacramental prévia. Esta concessão pontifícia outorgava pleno perdão de todos os pecados e das penas eles merecidos, e dava total garantia de salvação eterna, assegurando a retribuição dos justos a todos os cruzados. Esta graça a recebiam os que matavam ou morriam na empresa do crucificado, e se estendia a todos os seus colaboradores e assessore. Recorde-se que se ganha o céu se antes se confessa e comunga com o propósito de matar.
A entrada de paradigmas evolutivos
Teremos que situar os teologúmenos da escatologia (Reino de Deus, ressurreição, céu, inferno, purgatório, juízo final) dentro dos paradigmas de um cosmos em perene evolução. Hoje é impensável uma criação feita de uma vez para sempre (seis dias, as mesmas espécies, os mesmos planetas...). O universo é o conjunto de todas as coisas existentes, é a comunhão de todos os sujeitos coexistentes. Estamos imersos em um imenso sistema de relações de todos com todos em todos os momentos e em todos os lugares, uma rede de interrelações, constituindo a sinfonia universal. Cosmos e homens constituem sistemas abertos. Cheios de virtualidades que podem realizar-se e que estão se realizando, antes e depois de nossa pequena existência terrena.
A lei suprema é a solidariedade entre todos os seres, pois somos todos interdependentes e necessitamos uns dos outros. Todos habitamos o universo como um evento de comunhão. A realidade global – o todo eu, e o todo tu – é como uma imensa entidade em perene nascimento-morte, em constante crescimento, progresso, elevação... Este seria o novo paradigma, desde o qual se relê, se reinterpretam todas as realidades escatológicas.
Cristo dá um nome próprio à escatologia cósmica: desde o princípio Deus tem disposto a Cristo como princípio, fim e subsistência de todas as virtualidades e possibilidades da evolução, até a maturidade e plenitude do homem no cosmos no Cristo total. A vida terrena não termina na morte. A vida terrena não é um descanso imóvel: é a sinergia, a capacidade de ser simbiótico, quer dizer, a capacidade de relacionar-se com todos em vista do equilíbrio dinâmico que cria espaço para todos.
O propósito da vida não reside na pura e simples sobrevivência, senão, na realização das potencialidades presentes no universo e que querem expressar-se. Nesta perspectiva deve se entender purgatório, fim dos tempos, ressurreição futura... O céu é puro dinamismo, como deus e sua dynamis santa.
Ideias Finais
O purgatório é o processo de purificação, de integração, de maturação, de crescimento que se acelera no momento da morte física. Ninguém se enfrenta com o purgatório sozinho, nem na vida terrena, nem na morte. Sempre estaremos acompanhados e não somente pela fé e a oração da Igreja, senão pelo mesmo cosmos em expansão.
Não se trata de um problema que guarde relação unicamente com a alma e Deus, mas antes de uma realidade eclesial, social e cósmica. Esta é a grande intuição da Igreja ao ensinar com firmeza a solidariedade dos vivos com os defuntos e o valor do sufrágio que têm nossas ações por eles. Trata-se, antes, do processo radicalmente necessário de transformação do homem, graças à qual se torna capaz de Cristo, capaz de Deus e, em conseqüência, capaz da unidade com toda a comunhão dos santos ecom a comunhão com todos os seres do passado, do presente e do futuro.
Mar de Plata, outubro de 2011