quarta-feira, 5 de outubro de 2011

OS SINAIS DOS DISCÍPULOS (Mc 16,17-18)


Bruno Glaab



Introdução

Diversas vezes deparei-me com pessoas, até certo ponto desconfiadas com a sua própria igreja, pois julgavam que algo estava falho. Tudo isto deve-se ao fato de certas igrejas operarem sinais que geralmente as igrejas mais históricas não realizam, como curas, expulsão de demônios, falar em línguas, etc. De fato, no Novo Testamento há referência a tais sinais que seriam operados pelos verdadeiros discípulos. Jesus recomendou uma série de sinais a seus seguidores antes de se despedir, em sua forma física.

“Estes são os sinais que acompanharão os que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão em novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados”(Mc 16,17-18).

De fato, nas igrejas mais históricas não é muito comum se ouvir falar em expulsar demônios, nem tampouco fazer curas, ainda que atualmente existem movimentos que tentam trazer de volta estas práticas um tanto arcaicas. Nas igrejas de cunho pentecostal estas práticas são comuns, quase cotidianas. Seria isto um sinal de que nas igrejas históricas a ação de Jesus não se faz presente? Não estariam nelas os verdadeiros discípulos de Jesus? Expulsão de demônios, curas pelas mãos, falar em línguas e a imunidade diante do veneno e das serpentes não estariam sendo praticados pelas igrejas que, supostamente não seriam fiéis a Jesus.


1) Visão mítica dos sinais

Jesus, ou mesmo as comunidades onde os evangelhos se formaram, expressam-se com a linguagem cultural de sua época[1]. Esta linguagem, como toda a linguagem, vem marcada com os valores e conceitos culturais inerentes ao seu momento histórico. Hoje é mister tirar o véu da linguagem mítica para penetrar no cerne da questão. O que Mc 16,17-18 queria ensinar para os discípulos? Convém fazer uma análise de cada fenômeno destes:

a) Expulsar demônios[2]

Numa época em que não se tem nenhuma explicação científica para os males que afligem a humanidade, assim como doenças, deficiências físicas e mentais, pobreza, ódio, brigas, etc. era praxe atribuir tais infortúnios ao demônio. Na cosmovisão de então, tais males só podiam vir do maligno. Basta lembrar aqui a indagação dos discípulos de Jesus diante do cego: “quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?”(Jo 9,2). Desconhecendo completamente as causas que ocasionam a cegueira, cabia uma explicação mítica.


b) Falar em línguas

Em muitos textos do Novo Testamento se afirma o fenômeno da Glossolalia[3], ou seja, sob inspiração do Espírito Santo as pessoas falavam em línguas (At 2,1-13; At 10,44ss; 1Cor 12,10; 1Cor 14,1ss, etc. No entanto, é de se notar que também aqui estamos em terreno simbólico. O fenômeno da glossolalia era oriundo dos cultos pagãos[4], quando os coríntios se soltavam em louvores frenéticos diante de Dionísio, Baco e Diana. Quando alguns destes fiéis passaram para o cristianismo, trouxeram seus ritos juntos. São Paulo não gosta muito destes barulhentos orantes, mas não os condena (1Cor 14,1ss). No entanto, Paulo faz ver que acima de tal prática está a profecia e principalmente o amor. Chega a dizer que, se falasse todas as línguas, mas se não tivesse amor, nada seria (1Cor 13,1ss). Em At 2,1-13 este fenômeno é usado por Lucas, de forma simbólica, para ilustrar a nova realidade daqueles que agem em nome do Espírito Santo. Eles são missionários universais. Anunciam o evangelho a todos os povos e todos se entendem[5]. O que não acontecia com o exclusivismo farisaico, que separava os estrangeiros. Falar línguas é, antes, a prática da justiça para com todos os povos que se congregam em Cristo[6], no espírito Santo. É a evangelização universal, sem exclusão.


c) Imunidade ao veneno das serpentes

Há poucos anos foi noticiado na imprensa que um grupo de fanáticos, nos Estados Unidos, brincou com serpentes venenosas, na certeza de não sofrer com os males de seu veneno. Quando, no entanto, um deles foi mordido, teve de ser levado às pressas ao hospital e, por pouco não pereceu. A serpente de que fala o evangelho de Marcos não é a cobra venenosa, mas antes, devemos aqui pensar na serpente de Gn 3 que enganou Eva. Novamente estamos diante de uma forma literária mítica[7]. Aqui está o símbolo da monarquia do Egito e ao mesmo tempo da idolatria. Ou seja, quem enganou Eva não foi uma cobra falante, foi antes, a monarquia (1Sm 8,10ss) que se instalou em Israel e a idolatria que entrou devido às muitas mulheres de Salomão (1Rs 11,1-9). Também Paulo enfrentou uma serpente, quando estava sendo conduzido para Roma (At 28,3ss). O relato diz que Paulo nada sofreu. Trata-se também aqui de algo diferente do que do veneno de um ofídio. Antes, Paulo, um homem de Deus, ficou imune diante da grandeza do Império Romano e da religião que não reconhecia Jesus como o Filho de Deus. Ainda que de fato o Império Romano o assassinasse em Roma, Paulo não se dobrou diante de seu fascínio. O cristão, segundo Mc 16,17-18, não pode se deixar seduzir diante da serpente dos sistemas enganadores que desviam as pessoas da verdade.


d) Imposição das mãos

Hoje é muito difundido, até entre os cristãos, a prática da imposição das mãos com um sentido de curas. Tal prática também é atestada por Paulo (1Cor 12,4ss). Não se quer aqui entrar em questões como provar ou desaprovar o poder da mente, das mãos, etc. Isto cabe à parapsicologia e não à teologia bíblica. Apenas aqui se quer evidenciar que, quando Marcos fala da cura pelas mãos, ele tem outra idéia, pois a paranormalidade não está ao alcance de todos e o evangelho diz que todos aqueles que crêem o farão. Além do mais, os fenômenos paranormais nada tem a ver com fé, no sentido cristão. Pode, muito bem, uma pessoa atéia ter tais fenômenos e outra pessoa de muita fé não tê-los. Impor as mãos, segundo o evangelho é símbolo do agir, da bênção e da intercessão[8]. Ou seja, quem anuncia o evangelho deve agir com solidariedade. Nem todos podem fazer curas num sentido mágico ou milagroso, mas todos os que crêem em Jesus Cristo necessariamente devem agir (as mãos são símbolo do agir) em favor dos doentes, deficientes e de toda espécie de excluídos.


2) Os sinais que acompanham os cristãos

Uma vez visto que os sinais encerram uma simbologia condicionada pela cultura de seu tempo, pode-se, agora desvendar o imperativo de Mc 16,17-18. Para ser um discípulo verdadeiro de Jesus, não é necessário tentar expulsar demônios aos berros de: “em nome de Jesus, sai demônio!” Nem tampouco é preciso entrar em transe e dizer coisas desconexas como se estivesse falando em línguas. Menos ainda é preciso se expor ao veneno das cobras. E, mesmo não tendo dons paranormais de cura, pode-se ser fiel ao mandado de Jesus que pede que se imponha as mãos. Antes de pensar em milagres é preciso viver um compromisso. Aquele ou aquela que tem uma fé verdadeira em Jesus ressuscitado necessariamente deve lutar contra o mal em suas mais variadas formas (expulsar demônios), ainda que não grite ”sai demônio!”. A luta contra o mal é condição evidente. Quem anuncia Jesus e não tem compromisso na luta contra o mal cai no vazio. Ter fé também não requer falar línguas novas, mas exige falar a língua do amor (1Cor 13,1ss), aquela que não permite a exclusão do estrangeiro, do pobre, do deficiente, etc. Ter fé exige agir de tal maneira que todos se entendam, mesmo aqueles que vivem em outras culturas. Ser seguidor de Jesus não autoriza ninguém a se expor à fúria das cobras, antes, exige que não se contamine com as serpentes dos sistemas, da ideologia e da idolatria de hoje. Ser fiel a Jesus não exige fazer milagres com as mãos, exige antes, pôr as mãos a serviço dos doentes, ou seja, não é possível que um fiel seguidor de Jesus seja indiferente diante do sofrimento de tantos seres humanos que vivem à margem de tudo.


Conclusão

Seria muito fácil ser seguidor de Jesus se este desse aos discípulos poderes milagrosos e se não exigisse mais nada dos seus. Para saber se hoje, estamos no caminho certo, não precisamos procurar por sinais milagrosos. Hoje, como nos tempos da redação do evangelho de Marcos, é preciso se perguntar: a partir de nossa fé, lutamos contra o mal (demônios)? Falamos a linguagem do amor, fazendo com que todas as raças, culturas e grupos se encontrem (falar línguas)? Somos imunes às ideologias que diariamente as serpentes (ideologias) de hoje nos injetam na cabeça? Nossa fé nos leva a agir em prol dos doentes e marginalizados?

Os sinais que acompanham aqueles que crêem são o compromisso do discípulo de sempre se confrontar novamente e perceber se a fé muda nossa vida ou se somos como certos politiqueiros, cujo discurso está longe da prática. O cristão não pode separar o discurso (anúncio de Jesus) da prática. Quem anuncia Jesus deve assumir o compromisso pela vida. Isto é expulsar demônios, falar línguas, ficar imune ao veneno das serpentes e curar com as mãos. Cabe, no entanto, aos discípulos de hoje descobrir quem são os demônios a expulsar, quais as línguas a falar, quais as serpentes a enfrentar e quais os benefícios que as mãos devem trazer.

Por um lado, parece até que esta visão nos traz um conforto, já que não nos é exigido ter qualidades paranormais para sermos aut6enticos discípulos de Jesus. Por outro lado, esta visão nos deixa ruborizados, pois percebemos que temos uma missão mais complexa. Como não se trata de dons sobrenaturais ou paranormais, o texto nos envia ao compromisso crítico diante da realidade desafiadora de hoje. Não é preciso fazer milagres, mas é preciso fazer algo mais. Ter postura crítica diante do mal, usar a linguagem do amor comprometedor que nos impulsiona ao encontro de todos os povos, abrir os olhos diante da ideologia enganadora de hoje (Neoliberalismo, Nova Era, religião alienada, etc.), bem como estar sempre agindo a favor dos excluídos. Isto requer algo mais do que fazer milagres. Exige uma postura crítica em constante atualização. Portanto, um cristão que se fecha diante da realidade, que ignora os mecanismos de opressão e de injustiça, nunca será um verdadeiro discípulos de Jesus, ainda que reze muito e fale muito no nome de Jesus.


BIBLIOGRAFIA

BARBAGLIO, G. 1-2 Coríntios. São Paulo: Paulinas, 1993

BULTMANN, R. Mitologia y Nuevo Testamento. In: Ediciones de la Revista Mapocho. Madrid, Tom. IV, n.1, Vol. 10, 1965

COMBLIN, J. Atos dos Apóstolos. Petrópolis/S. Bernardo do Campo/S. Leopoldo: Vozes/Medotista/Sinodal, 1988, Vol. I

POHL, A. Evangelho de Marcos ­ - Comentário esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998

RICHARD, P. O movimento de Jesus depois da ressurreição – Uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999

SCHWANTES, M. Projetos de esperança ­ - Meditações sobre o Gênesis 1-11. Petrópolis/Rio de Janeiro/São Leopoldo: Vozes/Cedi/Sinodal, 1989

[1] BULTMANN, R. Mitologia y Nuevo Testamento. p149ss.
[2] Ver GLAAB, B. Expulsar demônios é possível, mas não é tão fácil. In: Cadernos da Estef. n. 21, 1998/2, p.43ss.
[3] COMBLIN, J. Os Atos dos Apóstolos. Vol. 1, p. 87ss.
[4] BARBAGLIO, G. 1-2 Coríntios. p.79
[5] COMBLIN, J. Op. Cit. p.90-91.
[6] RICHARD, P. O movimento de Jesus depois da ressurreição. P.39ss.
[7] SCHWANTES, M. Projetos de esperança. p.81.
[8] POHL, A. Evangelho de Marcos. p.465.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

SÃO FRANCISCO, UM SANTO ATUAL






PAZ E BEM



Por que celebrar São Francisco? Por que venerar este santo? Não seria bem melhor anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho?
O culto aos santos é bíblico. Já no Antigo Testamento as pessoas que se destacaram na sua fidelidade a Deus e a seu projeto são destacadas. Assim, Abraão, Moisés, Isaías, Jeremias, etc. Todas estas pessoas têm uma veneração da parte do Povo de Deus (Hb 11,1ss). Jesus Também se referia a Abraão, a Moisés, etc. Estas pessoas eram lembradas não como divinda-des, mas como fiéis colaboradoras do projeto de Deus.
Em At 1,6-8 o Ressuscitado diz para a comunidade reunida: "Recebereis o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas até os confins do mundo". Em outras palavras, a Igreja recebe o Espírito Santo, mas precisa também do testemunho dos cristãos e das cristãs.
Com base nesta doutrina, desde os primeiros tempos do cristianismo as pessoas que se des-tacaram no testemunho foram veneradas. Assim tempos a pessoa de Santo Estêvão (At 6 e 7), a pessoa de São Pedro (At 1-5), a pessoa de São Paulo (At 13,1ss). Todas estas pessoas e tantas outras deram testemunho do evangelho e do Reino de Deus. Por isto mesmo seu testemunho foi motivo de orgulho para a Igreja e ela divulgava estes testemunhos para que todos se encorajassem e também se dispusessem a viver na fidelidade.
Nos primeiros séculos do criastianismo, quando o Império Romano perseguia o cristianismo, muitas pessoas apostatavam, traíam a sua fé para se verem livres das perseguições. Outras pessoas, no entanto, preferiam derramar seu sangue pela causa de Jesus Cristo e do Reino. Assim temos os exemplos de Santa Cecília, Santa Inês, São Sebastião, etc. Sempre que al-gum irmão ou irmã derramava seu sangue em fidelidade, a Igreja o canonizava para que todos vissem seu exemplo, sua intrepidez e vendo isto, se animassem em reacender a chama da fé e do testemunho. Assim, o exemplo dos santos servia de contágio para tantos pusilânimes. Vendo a disposição dos mártires, os tíbios se animavam e seguiam até o fim. O testemunho dos mártires é vitamina na vida das comunidades de fé.
No fim do século XII e início do século XIII um jovem de Assis se converteu a Jesus com uma radicalidade tal que todos e todas queriam imitar-lhe as virtudes. O jovem Francisco, depois de uma juventude um tanto vaidosa, entendeu que só Deus é absoluto e que tudo o mais é relativo. Ele viveu isto com tal radicalidade que chegou a se esvaziar de tudo, até de sua roupa e de sua família. Viveu como o mais pobre de Assis. Dando a Deus o seu devido lugar, deu também o verdadeiro lugar às criaturas. Tudo para ele era digno no seu devido lugar.
Passaram-se mais de 800 anos e, assim como outrora o exemplo dos santos homens e mulheres do Antigo Testamento, o testemunho dos mártires do Novo Testamento, assim o testemunho de Francisco é fonte de inspiração para milhões de homens e mulheres, no mundo todo. Hoje, pessoas de diversas religiões se inspiram no testemunho deste jovem para viver um ideal de fidelidade a Deus e ao reino.
Nós, membros da grande família franciscana, estamos em festa. Francisco nos ensina que só Deus é absoluto e que tudo o mais é relativo. Francisco nos ensina a quebrar os ídolos de nosso tempo que, tantas vezes se aninham em nossos corações e tomam oo lugar de Deus. Olhando para o Pobre de Assis, sentimo-nos contagiados a seguir seu exemplo. Sem Francis-co, a Igreja toda seria muito mais pobre. Que o exemplo deste homem nos anime a transformar o mundo.
Frei Bruno Glaab

sábado, 1 de outubro de 2011

O messianismo



Bruno Glaab


0 - Antecedentes

Há no ser Ser Humano, em todos os tempos, uma tendência messiânica. Isto é, espera-se acontecimentos mirabolantes. Um súper-herói que venha do alto e resolva todos os problemas, que castigue os maus de forma trágica. Que o reino irrompa na história, sem que o homem e a mulher tenham participação direta na realização de tal acontecimento (At 1,6-8). Esta tendência messiânica se manifesta no lado positivo como no negativo:


a) Lado Positivo

Espera-se um messias que resolva tudo. Algumas seitas pregam que o velho mundo irá acabar e que a segunda vinda de Cristo inaugurará novo mundo só para os bons (Adventistas). Este mesmo messianismo se verifica no campo político, artístico, esportivo, etc. Muitos se tornam facilmente presa de políticos populistas, dos quais se esperam soluções mirabolantes. O mesmo se percebe em relação a artistas e atletas, de maneira tal, que tais personagens viram ídolos.


b) Lado negativo

Igualmente, o povo gosta de previsões catastróficas sobre guerras, tragédias, fim do mundo. Parecem uma maneira de superar crises intransponíveis de toda ordem. Um exemplo disto são os segredos de Fátima e os presságios de tantas seitas.


1 - Aspectos históricos

Para satisfazer às necessidades messiânica da humanidade, em todas as épocas, sempre houve a figura dos adivinhos e magos. Muitos destes previam coisas boas, mas também muitos previam o fim iminente. Na história da igreja se conhece heresias que pregam o fim: os milenaristas, etc.

Nas viradas de séculos e milênios sempre surgem tais fenômenos com muita ênfase. Em tempos mais recentes surgem grupos de caráter messiânico prevendo o fim do mundo com data marcada. As Testemunhas de Jeová já previram o fim inúmeras vezes. Marcaram-no para 1870, 1900, 1914, 1932, etc. Inclusive se diz que a indústria de alimentos enlatados surgiu e se desenvolveu entre um grupo religioso chamado de Quackers, nos EUA, pois o referido grupo esperava uma irrupção do reino onde haveria dias de tribulação. Os enlatados seriam o alimento para tais dias.

Com a virada do milênio, numa época de crises de toda ordem, em parte originados pelas injustiças sociais, ora pelas ideologias que guiam o mundo, e ainda pelo avanço técnico-científico que muda tudo num abrir e fechar de olhos, o terreno para os profetas do messianismo está fértil. O ser humano em crise de valores, sem terra firme sob seus pés busca no misterioso uma saída fácil para seus problemas insolúveis. E a grande massa do povo, que sofre toda espécie de carências, facilmente se torna vítima de tais messianismos. O mesmo fato aconteceu com a ascensão de Hitler ao poder. Uma Alemanha quebrada, com inflação galopante acima de mil% ao mês viu seu povo se agarrar a qualquer galho que lhe oferecesse segurança. Hitler se tornou para este povo, o messias que iria resolver, de forma poderosa, todos os problemas que o povo sofria.


2 - Aspectos bíblicos

Desde o AT se nota, na Bíblia referências à prática da magia e da adivinhação. Inicialmente se confunde o papel de profeta com o de vidente (1Sm).
- Saul diante de uma batalha consulta uma necromante (1Sm 28,3-19).
- Manassés estabeleceu necromantes e adivinhos (2Cr 33,6).
- Isaías atesta tal prática (Is 8,19).
- José do Egito interpreta sonhos (Gn 40-41).

Mas a Bíblia, ainda que em alguns casos mostra tal prática, condena a magia, a adivinhação e a invocação dos mortos.
“Não haja quem faça presságios, pratique astrologia, adivinhação ou magia, nem que pratique encantamentos, consulte espíritos ou adivinhos, ou também invoque os mortos”(Dt 18,10-11).

“Não pratique adivinhação nem magia”(Lv 19,26).

“Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos, porque eles tornariam vocês impuros”(Lv 19,31).

A prática da adivinhação era, no fundo, a religião do estado. Os adivinhos são os ideólogos dos reis. É uma maneira de controlar o povo.

No Novo Testamento pode se citar algumas referências à prática da magia e adivinhação: Simão, o mago (At 8), a jovem adivinha (At 16,16ss), etc. Sempre, tais pessoas são apresentadas de forma negativa. Ainda se pode citar a literatura apocalíptica com um certo ranço de prever o futuro, mas, um estudo mais profundo mostrará que se deve perceber tal fato de maneira diferente. Havia, nesta época a crença no fim do mundo. Mc 13 reflete tal fato. Refere-se à destruição do templo, mas ao que parece, o texto foi escrito quando o fato já está consumado.


3 - O Apocalipse como sinal do fim

O livro do Apocalipse, devido ao seu gênero literário, à sua rica simbologia é o livro mais usado pelos profetas do fim para propalar suas profecias. No entanto, o livro do Apocalipse não é livro de previsões. Não serve para amedrontar, pois seu objetivo é justamente o contrário. Durante as duras perseguições do Império Romano, ele quer encorajar os cristãos que se sentem frágeis. O livro do apocalipse poderia ser resumido assim: “Não tenham medo! Jesus Cristo ressuscitado é o Senhor do mundo”. Isto se reflete em Ap 1,17-18). Mas devido ao gênero apocaliptico, gênero literário de momentos de grande perseguição, onde se usa muitos símbolos, linguagem velada, o livro é usado justamente no sentido contrário.

“Revelação de Jesus Cristo: Deus lha concedeu, para mostrar a seus servos o que deve acontecer em breve”(Ap 1,1).

Segundo os adivinhos de hoje, seria este 1º versículo um sinal claro de que estas coisas devem acontecer em breve. Mas esquecem-se de que esta frase já está escrita há quase dois mil anos e ainda não aconteceu. Por que deveria agora ser o tempo? Dizem os biblistas que o Apocalipse foi escrito em partes. A mais antiga seriam os capítulos 4-11, escritos nos anos 60 durante a perseguição de Nero. Os capítulos 12-22 teriam sido escritos nos anos 90 durante a perseguição de Domiciano e os capítulos 1-3 seriam a parte mais nova, escritos como introdução. Portanto, quando o livro já estava circulando, e muitas coisas já haviam acontecido, como no caso de Mc 13 em relação à destruição do templo. Logo, Ap 1,1 não tem a pretensão de prever o fim do mundo, mas quer mostrar que Jesus é o Senhor da História.

Outro texto muito usado pelos grupos fundamentalistas, e que teria algo a ver com o fim do mundo, é:

“E ninguém mais poderá comprar ou vender, se não tiver a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Quem tiver inteligência, interprete o número da besta. É o momento de ter discernimento, pois é um número de homem. E o seu número é seiscentos e sessenta e seis”(Ap 13,17-18).

Segundo a crença fundamentalista, o número 666 seria o sinal do anticristo que viria na história. Algumas seitas aplicam este número ao Papa. Dizem os alguns fundamentalistas que o Papa usava, em sua Tiara o título:

V I C A R I U S F I L I I D E I (Vigário do Filho de Deus – representante)
5 1 100 - - 1 5 - - 1-50-1-1-500 -1 = 666

No entanto, o Apocalipse não se refere a algarismos romanos, mas usa letras gregas, que também têm seu valor numérico. Aqui há uma referência a César Nero. Escrito em Grego, à maneira hebraica, lido da esquerda para a direita, sem vogais:
Ü Ü

N V R eN Ra Se Q[1] - (César Nero)
50 6 200 50 200 60 100 = 666

O texto, nos tempos de Domiciano, usa o nome de Nero, por ter sido ele o símbolo de crueldade que, provavelmente patrocinou a morte de Pedro e de Paulo. Logo, quer esclarecer os cristãos de seu tempo e não quer meter medo em ninguém. Por isto mesmo este texto não serve para prever futuro, para caluniar o Papa, ou para antever o fim do mundo.

Os capítulos 21 e 22 do Apocalipse falam de novos céus e nova terra. Isto deu margens para que leitores fundamentalistas julgassem que o mundo terminaria e que a segunda vinda de Cristo inaugararia nova terra, onde só os membros de determinados grupos participariam. Novo céu e nova terra (Ap 21-22) não quer indicar tal coisa. Mostra apenas que Jesus ressuscitado é maior do que o Imperador Romano e que sua causa será vitoriosa sobre todos os poderes do mundo. Ele vai triunfar. Quem está com ele, triunfará com ele.



4 - O Anticristo de 1Jo 2,18

“Filhinhos, é chegada a última hora. Ouvistes dizer que vem um anticristo; pois agora muitos anticristos estão aí. Por isso reconhecemos que é a última hora”(1Jo 2,18).

O texto se refere aos hereges que deturpam a verdadeira imagem de Jesus. Negam sua humanidade (docetismo). Ora, negando a humanidade de Jesus, levam os fiéis a uma perigosa encruzilhada que lhes traga conseqüências desastrosas, como um Deus apenas idéia. O autor se refere à última hora como uma maneira de descrever o escândalo. Negar a Jesus, na concepção de João, é o fim. Jesus tinha anunciado que no fim dos tempos (período que vai desde a ressurreição até o fim da história) apareceriam os anticristos (Mc 13,22). Ora, eles já estão aí enganando o povo (cf Mc 13,21-23).

No entanto, este texto não pode ser visto como uma previsão do fim do mundo, pois neste caso ele teria se realizado nos tempos da redação da epístola, isto é, no fim do 1º século do cristianismo.


5 - Conclusão

Se alguém quiser saber como e quando Deus criou o mundo ou se quiser saber como e quando será o fim do mundo, não deverá buscar na Bíblia resposta para estas perguntas. A Bíblia não é livro de ciências para dizer quando e como foi criado o mundo e, menos ainda, para prever o futuro. A Bíblia ensina o projeto de Deus para a humanidade. O resto são especulações patológicas da fantasia humana que mais servem para atrapalhar do que construir.
Assim sendo, também no mundo bíblico encontramos a visão de um SH esperançoso que anseia pelo futuro. Este mesmo anseio o leva, em certos casos ao buscar a realização de forma mágica ou milagrosa, outras vezes, até busca o sinistro. Isto, tudo, no entanto, é um sinal de que, na compreensão bíblica, o SH é um ser aberto ao futuro, ou seja, alguém que está constantemente em busca. Melhor, diríamos, o SH não está completo na sua dimensão atual. Ele busca seu grande destino, a realização total, aquilo que chamamos de CÉU.
[1]WROSZ, Vicente. Quem é a besta do Apocalipse? Curitiba, Livraria SVD, p. 2.

Feições femininas de Deus

Bruno Glaab

Introdução

Em nossas reflexões somos acostumados a chamar a Deus de Pai. Achamos isto lógico, pois combina com toda nossa cosmovisão e, além do mais, a Bíblia nos dá a base desta visão patriarcalista. Quando, há alguns anos, certas pessoas começaram a chamar a Deus de mãe, houve verdadeiro mal-estar. Supunham algumas pessoas de boa fé, que se estava a blasfemar o nome de Deus. Onde já se viu, tratar a Deus como mulher? Um escândalo! De fato, a nossa cultura nos leva a olhar para Deus como Pai e nossa sociedade machista nem sequer pode pensar um Deus-mãe. No entanto, é bom lembrar que, falamos de Deus por analogia, ou seja, falamos de Deus a partir de nossas experiências vitais. O que para nós é sagrado, isto projetamos sobre Deus. Como, nossa cultura leva acentuado patriarcalismo, é lógico que olhemos para Deus como Pai. E, na Bíblia, que vem expressa em linguagem humana, imersa em uma cultura concreta, também não é diferente, pois esta mesma cultura era patriarcalista.
Ninguém de fato pode falar de Deus a não ser usando categorias humanas. No sentido estrito do termo, Deus não é mãe, nem pai, pois não gestou nem procriou a ninguém. Já no sentido figurado, sim, podemos chamar a Deus de Pai ou também de mãe. Nós humanos é que projetamos em Deus as nossas categorias. Assim é muito compreensível que, na cultura judaica, onde a Bíblia se formou, Deus viesse apresentado como masculino. Mas não necessariamente deve ser assim, pois até na Bíblia há inúmeros vestígios de Deus-mãe.

1 – Shadai, nome feminino

No Antigo Testamento encontram-se muitos títulos para Deus. Os mais comuns são: Javé (mais de 6 mil vezes) e Elohim (mais de 2 mil vezes). No entanto, encontram-se, no Antigo Testamento, 48 vezes o nome de Shadai. Só no livro de Jó este título aparece 31 vezes[1]. Este nome é sintomático, ou seja, expressa algo de profundo da experiência oriental, pois o termo Shadai é rico em sentido:

“A palavra Shadai vem de Shad: mama, seio, úbere. Expressa a idéia de fartura, fertilidade, abundância, ternura carinho, amor. É o leite materno que alimenta a criança. São os úberes exuberantes que fazem crescer robustos os filhotes do rebanho”[2].

Muito embora nem todos os dicionários concordem, e mesmo que a LXX traduzisse o termo por Pantokrator, isto é, Todo-poderoso, e a Vulgata o traduzisse por Omnipotens, o que também é Todo-poderoso, ou ainda, que se afirme que Shadai traduz o autosuficente, destruidor, ou ainda Deus da montanha[3]¸ o Dicionário de Jenni e Westermann afirma que o termo Shadai tem relação com a palavra semítica que significa peito e é nome de uma deusa da fecundidade[4]. Porém, o mesmo dicionário afirma logo a seguir, que, por aqui se tratar de um Deus masculino, esta etimologia não interessa. Como, no entanto Shadai está próximo a shad, e sendo que este termo é traduzido por peito, seios pode-se supor que a tradução de Shadai seja de fato uma designação feminina.

“Estudos recentes voltaram a ligar o epíteto ao acádico shadu, ‘montanha’, mas não no sentido estrito do termo, e sim na acepção de ‘seios’, ‘mamas’ (em hebraico, shaddayim; cf Gn 49,25: ‘por El Shadday bênção das mamas e dos seios’); portanto, não o ‘Deus da montanha’ mas o ‘Deus da abundâncvia”[5].

Aplicando a Deus o título de Shadai, a cultura hebraica demonstra que em seu meio também havia a possibilidade de ver Deus como mãe, pois é no conceito de mãe que se expressa a noção de proteção, de carinho, de alimento e de fartura, elementos básicos para a vida da criança. Neste sentido, a figura da mãe é mais importante que o pai na gestação e na sobrevivência do ser indefeso recém nascido. Sem pai a criança pode viver, sem a mãe, perece. O homem e a mulher transferem esta sensibilidade para a sua relação com Deus. O Deus que acompanha Abraão, em certos momentos, é mãe.

“Quando Deus prometeu a Abraão que multiplicaria a sua descendência como as estrelas do céu e os grãos de areia do mar, apareceu no texto este nome: ‘porque eu sou Shadai’, isto é, o Deus dos seios maternos que têm leite em abundância para milhões de filhos”[6].

Como se percebe, em Israel existe a experiência de um Deus com rosto de mãe, que cuida, alimenta e dá carinho ao povo nos momentos de dificuldade e de desespero. Deus-mãe é proteção, sinal de prosperidade e fartura. Em momentos de extrema dificuldade, como no caso de Jó, o personagem que se viu num profundo desespero, abandonado, aparentemente por Deus e por todos, a figura de um Deus-mãe poderia ser mais simpática, ou até, mais necessária.

2 – Algumas feições femininas de Deus

Além do nome de Shadai que é feminino, temos, também, na Bíblia, outras representações de Deus que vem exaradas em características femininas:

a) Um Deus carinhoso (Is 66,6 –13)

O Exílio da Babilônia (598-538a.C.) significou a destruição para o povo de Jerusalém. A cidade foi arrasada e o templo, como marco da religião javista, foi destruído (2Rs 24-25). A destruição do templo, bem como da cidade com seus muros, mais do que destruição física, significava, para aquele povo, a destruição de imaginário social e, principalmente de um ideário religioso. Após o decreto de Ciro, rei da Persia (Es 1,1ss), permitindo a volta do povo para Jerusalém (539a.C.) o povo caiu na dura realidade ao ver as ruínas da cidade santa e do templo. Era preciso reconstruir. Porém, diante das pedras e dos destroços, faltava ânimo para aqueles repatriados. A esperança estava em crise. O terceiro Isaías (Is 56-66) é arauto da reconstrução, não tanto física, mas ideológica de Jerusalém. Numa de suas diversas tentativas de encorajamento, ele escreve a perícope de Is 66,6-13. O profeta descreve Jerusalém como mãe carinhosa que amamenta seus filhos e por fim apresenta o próprio Deus como mãe[7]. É o Deus que se manifesta nas esperanças de um povo.


“Como uma pessoa que a sua mãe consola, assim eu vos consolarei; sim, em Jerusalém sereis consolados”(Is 66,13).

Deus é sempre a proteção de seus filhos, por isto mesmo, em momentos de crise e de desalento no retorno do Exílio, nada melhor do que apresentar o consolo e a proteção de Deus como o carinho da mãe que cuida de seu filho e lhe dá segurança. Isaías conhece a ação protetora de Deus, que sempre se posiciona a favor da vida, e por isto mesmo, apresenta Deus qual mãe a consolar o fruto de suas entranhas, pois esta é a melhor imagem da proteção da vida. Deus é mãe, pois para os exilados repatriados, como para a criança indefesa, nada melhor do que a figura da mãe com seus seios fartos, de sua ternura e de sua proteção. Talvez nenhuma literatura do Antigo Testamento melhor que a profética, poderia ter esta ousadia de apresentar a Deus com feições de mulher-mãe, pois ninguém melhor do que os profetas para entender a carência do povo e o amor de Deus.
Logo, Deus, em Is 66,6-13, é mãe para seu povo. Ele é alimento, segurança e carinho. Deus-mãe revela uma situação em que os repatriados possam voltar a ter esperança, mesmo em meio às ruínas e ao sofrimento. O povo pode reconstruir sua identidade em meio às pedras, pois o Deus-mãe não o abandonou, nem voltou contra ele seu rosto.

b) Deus como mãe (Is 49,14-15)

O segundo Isaías (Is 40-55) é o assim chamado profeta da consolação[8]. Seu livro é o grande poema do retorno do exílio, qual segundo êxodo, ainda mais glorioso que o primeiro[9]. Neste quadro quando se espera voltar para a pátria, o profeta Isaías descreve o amor de Deus na perspectiva da mulher:

“Sião dizia: ‘Iahweh me abandonou; o Senhor se esqueceu de mim’. Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho de seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem eu não me esqueceria de ti” (Is 49,14-15).

Nesta promessa de retorno, quando o povo está desolado e precisa de alento, o profeta usa a figura da mulher-mãe. Assim como a mãe nunca esquece seu filho, Deus também não esquece de Israel. Neste sentido o profeta faz questão de usar a figura da mãe para descrever o amor de Deus, talvez porque o amor do pai não tenha esta característica de carinho e presença. Em Nm 11,12 Moisés reclama diante de Deus, dizendo: “Fui eu, porventura, que concebi todo este povo? Fui eu que dei à luz, para que me digas: ‘Leva-o em teu regaço, como a ama leva a criança no colo, à terra que prometi sob juramento a seus pais?” Moisés quer fugir do compromisso e por isto mesmo não se entende como mãe do povo[10]. Moisés não nega ser pai do povo, nega ser mãe. Pois se fosse, teria o compromisso com o povo.

Conclusão

Nada deve estranhar ao leitor quando se apresenta imagens de Deus diferentes das convencionais. Deus é mais do que dele podemos afirmar. Certo é que, tudo o que de bom temos em nossa situação humana, podemos projetar nele, e ainda não dizemos tudo.
Neste período de emanicipação da mulher, resgatar a figura de Deus como mulher, certamente é de grande valia. Resta para hoje, além destas figuras, encontrar outras que expressem o rosto negro e índio de Deus, pois ele está em todos aqueles e aquelas que hoje precisam de proteção, de carinho e de conforto. Deus está infinitamente acima de nossos adjetivos, mas nossos adjetivos o tornam mais compreensível a nós.

Bibliografia

ALONSO SCHÖKEL, L.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas. S. Paulo: Paulinas, 1988, Vol. I
BORTOLINI, José. Roteiros homiléticos. In: Vida Pastoral. S. Paulo, 2001, n.219
SOUZA, Rômulo C. Palavra Parábola – uma aventura no mundo da linguagem. Aparecida: Ed. Santuário, 1990
STEINMANN, J. O livro da consolação de Israele os profetas da volta do exílio. S. Paulo: Paulinas, 1976
VADEMECUM para o estudo da Bíblia. s. Paulo: Paulinas, 2000





[1] HAMILTON, V. P. Shadday. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento.
[2] SOUZA, R. C. Palavra Parábola. p.92.
[3] HAMILTON, V. P. Op. Cit.
[4] JENNI, E.; WESTERMANN, K. Shadday. In: Diccionario teologico manual del Antiguo Testamento.
[5] VADEMECUM para o estudo da Bíblia. p.283.
[6] SOUZA, R. C. Op. cit. p.92.
[7] BORTOLINI, J. Roteiros homiléticos. In: Vida Pastoral.n.219. p.35.
[8] STEINMANN, J. O livro da consolação. p.98ss.
[9] ALONSO SCHÖKEL, L; SICRE DIAZ, J. L. Profetas I. p.271ss.
[10] Idem, p.327.
A BÍBLIA, O LIVRO DOS CRISTÃOS
Frei Bruno Glaab
O cristianismo, desde sua origem, tem por base a pessoa de Jesus Cristo, que por sua vez, está dentro de um universo religioso, baseado em livros sagrados. Esta coleção de livros sagrados, recebe o nome de Bíblia.
1 – Nascimento da Bíblia
No entanto, a Bíblia não nasceu como livro. Ela nasceu como a história de um povo, e por muitos séculos, era apenas uma Tradição Oral. Ao leitor desavisa-do, pode parecer que a Bíblia nasceu junto com a origem do mundo. Isto não se ve-rifica. Aliás, a Bíblia começou a se formar aproximadamente pelo ano de 1400, ou segundo alguns estudiosos, por volta de 1900 anos antes de Jesus Cristo. Isto signi-fica que a Bíblia, na melhor das hipóteses, começou a se formar há 3.900 anos a-trás, ou seja, é algo relativamente novo na história do mundo e da humanidade, pois hoje as ciências nos mostram que o mundo já existe há muitos milhões de a-nos e o ser humano existe, no mínimo há centenas de milhares de anos. Logo, a Bíblia não nasceu na origem do mundo e nem descreve a origem do mundo.
Como foi dito, a Bíblia não nasceu como livro, mas nasceu como a ação de Deus na história de um povo e como a resposta deste povo à ação de Deus. Antes da experiência da Bíblia os homens e as mulheres já tinham religiões e já cultua-vam divindades. Acontece, no entanto, que em Israel, com Abraão e principalmen-te com Moisés, inicia-se uma nova experiência de Deus e de religião. É Javé quem se revela. A experiência fundante para a formação da Bíblia inicia com os escravos do Egito, liderados por Moisés, que se organizam e se libertam, passando pelo Mar Vermelho. Esta experiência passa a ser chamada de Páscoa, ou Êxodo e todos os anos é celebrada e trazida à memória do povo. Faz-se uma aliança com Javé, devi-do à libertação ocorrida. Todos os anos, quando se celebra novamente a memória da passagem do Mar Vermelho, isto é, a páscoa, se celebra-se aquilo que mais tar-de é chamado o início da Bíblia.
2 – Crescimento da Bíblia
Sobre a experiência da passagem do Mar Vermelho (Êxodo), desenvolve-se a religião javista e, aos poucos vão se formando tradições que enriquecem esta ex-periência. Assim, formam-se diversas tradições, que hoje estão consignadas nos li-vros do Pentateuco (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt) e outros. Mas muito disto, é bom lem-brar, são tradições orais, passadas de pais para filhos, durante muitas gerações. Com a instalação da monarquia, em Israel, surgem também os escritos. Talvez al-gumas tradições já fossem escritas. Neste período também são escritos alguns tex-tos proféticos, isto é, livros de alguns profetas (a partir do séc. VIII a.C.).
3 – A redação da Bíblia
Foi dito que a Bíblia nasceu como tradição oral. Também foi dito que nos tempos da monarquia foram escritos algumas tradições e livros proféticos. Mas a redação das tradições bíblicas, ou tradições orais, tais quais as temos hoje, aconte-ceu a partir de 589 a.C. O povo de Israel havia sido levado para o exílio na Babilô-nia. Foi lá que muitas das tradições orais foram escritas para não serem esquecidas, ou para não perdê-las. Foi então que, escribas reuniram as velhas tradições e as es-creveram. Mais tarde, com a volta do exílio, por volta de 530 alguns destes livros foram completados e dispostos como os temos hoje na Bíblia. Assim temos o Pen-tateuco, os profetas, os livros históricos e também a literatura sapiencial.
4 Formação do Novo Testamento
Também com o Novo Testamento não é muito diferente. Quando Jesus agiu, ninguém fez ata. Muitos anos depois de sua paixão, morte e ressurreição seus feitos são escritos. Primeiro é Paulo que escreve no Novo Testamento. Ele escreve uma coleção de cartas às comunidades que havia fundado. Neste tempo não havia ne-nhum evangelho escrito. O evangelho era apenas tradição oral de um grupo de a-póstolos que havia convivido com Jesus. Aí pelos anos 70 d.C., quando a maioria dos apóstolos já não vivia, um certo Marcos escreveu o primeiro evangelho em 16 capítulos. Dez anos mais tarde (anos 80), Mateus e Lucas retomaram o evangelho de Marcos e o reescreveram, seguindo sua estrutura, mas enriqueceram o texto com discursos de Jesus e uma coleção de sentenças, ou ditos. Também escreveram sobre a infância de Jesus, coisa que Marcos não fez. Por isto, Marcos, Mateus e Lucas são chamados de evangelhos sinóticos, pois têm um mesmo ponto de vista. Nos anos 80 também foram escritos os atos dos Apóstolos, as cartas de Tiago, Pe-dro e Judas, bem como Hebreus. Aí pelos anos 90 foi escrito o quarto evangelho, ou seja o evangelho de S. João. Por volta do ano 95 saíram, das comunidades joa-ninas, as três cartas de João e o Apocalipse.
Conclusão
A Bíblia é uma coleção de livros inspirados por Deus (2Tm 3,14-17), mas escritos por homens e mulheres, num período de aproximadamente 2000 anos. Ne-la não podemos buscar verdades científicas e históricas, mas a verdade de Deus pa-ra a nossa vida e salvação. Ela contém os planos de Deus para a humanidade. Ela mostra como Deus acompanha o seu povo, como Deus age com seus filhos e fi-lhas. Nela encontramos o caminho do Reino de Deus, caminho que leva ao Pai.

A Bíblia e sua história

Frei Bruno Godofredo Glaab

A Bíblia é o livro mais editado e mais lido no mundo. Sua tradução já chegou a quase todas as línguas, povos e nações. Muitos, mesmo incrédulos, buscam na Bíblia uma luz e um sentido para a sua vida. A palavra Bíblia, no entanto, não significa livro, mas antes, coleção de livros.
A Bíblia é uma coleção de livros usada por judeus e por cristãos. Os judeus aceitam apenas o Antigo Testamento por livros inspirados, ao passo que os cristãos aceitam também o Novo Testamento, ou seja, nele está o seu centro. Ainda há uma pequena variação entre a Bíblia como é usada pelos judeus e a Bíblia na versão católica, ou seja, a Bíblia Hebraica não traz sete livros encontrados na versão católica, os chamados livros Deuterocanônicos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Baruc, Eclesiástico e Sabedoria, bem como algumas partes do livro de Daniel. Estes livros, inicialmente também estavam na Bíblia Hebraica, mas por volta dos anos 90 da era cristã, foram eliminados. A Igreja católica, desde o início aceitou estes livros em seu cânon. No ano de 393 houve um Sínodo em Hipona (África). Neste Sínodo são mencionados todos os 73 livros da Bíblia. A Reforma Luterana do Século XVI adotou a Bíblia Hebraica, por isto, ainda hoje, a diferença entre a Bíblia Católica e a Protestante está na falta dos sete livros, acima mencionados.

1 – História da Bíblia

A Bíblia, como hoje a conhecemos, tem uma longa história. Ela não nasceu como livro e menos ainda como livro pronto. Começou com antigas tradições que foram passadas de pais para filhos, para netos e bisnetos. Estas tradições eram celebradas anualmente. Fato fundante na Bíblia é o Êxodo. Este fato aconteceu por volta do ano de 1250 a.C. Sobre este fato nasceu uma experiência religiosa que era celebrada anualmente pelo povo. Fez-se uma aliança com Javé, Deus que tirou os escravos do Egito. Mas até então não havia nada escrito. Esta experiência era celebrada anualmente e transmitida às gerações novas. Sobre esta experiência religiosa de libertação começou a se desenvolver a religião javista (judaica). Muito mais tarde, por volta de 550 a.C. quando o povo de Jerusalém estava exilado na Babilônia, estas velhas tradições foram compiladas e escritas. Assim, pode-se dizer que a Bíblia, como experiência religiosa inicia bem antes de 1250 a.C. mas como livro escrito, começa, com alguns fragmentos no tempo da monarquia de Israel, mas principalmente no período do exílio, isto é, setecentos anos após o Êxodo.
Com a formação do Novo Testamento também não é muito diferente. Quando Jesus viveu ninguém fez nenhuma ata. Só depois de sua paixão, morte e ressurreição é que os discípulos começaram a entender a pessoa e a mensagem de Jesus. Saíram a anunciar sua palavra e a testemunhar sua ressurreição. Isto tudo era trabalho oral. Paulo foi o grande missionário do evangelho. Por volta do ano 48 ou 50 ele escreveu uma carta a uma comunidade onde ele tinha anunciado o evangelho tempos antes. Trata-se da Primeira Carta aos Tessalonicenses. A partir de então, até o ano 63 ele escreveu as assim chamadas cartas paulinas. Somente por volta do ano 70, quando aqueles que conviveram com Jesus já tinham, quase todos, desaparecido, é que Marcos escreveu o primeiro evangelho. Dez anos mais tarde, Mateus e Lucas retomam o evangelho de Marcos e o reescrevem, acrescentando muitas coisas que Marcos omitiu ou desconheceu. Assim, em Mateus e em Lucas temos os relatos da infância de Jesus, bem como muitos discursos e frases de Jesus que não se encontram em Marcos, mas a estrutura dos três evangelhos é semelhante. Estes três evangelhos recebem o nome de evangelhos sinóticos. Neste período também foram escritas as demais cartas que se encontram no Novo Testamento, bem como o livro dos Atos dos Apóstolos, que é a segunda obra de Lucas. Por volta dos anos 90 foi escrito o evangelho de João. Da mesma escola de João saíram também as cartas de João e o Apocalipse, alguns anos mais tarde.
Assim, a Bíblia começou a se formar pelo ano 1250 a.C., como tradição oral e terminou no fim do primeiro século da era cristã, o que compreende um período de mais de mil anos.

2 – Comparação sinótica das diversas traduções da Bíblia

Não existe mais nenhum livro original da Bíblia. Os manuscritos mais antigos são do século IV d.C.. Acontece que antes da era da imprensa, as Bíblias eram copiadas manualmente nos mosteiros. Imagine o leitor que serviço dava copiar uma Bíblia toda. Chegando ao fim, corria-se o risco de copiar uma palavra diferente. Assim, alguns antigos manuscritos trazem diferenças entre si. Alguns têm acréscimos, variantes, etc. Quando se traduz a Bíblia para uma outra língua, corre-se o risco de, às vezes não entender corretamente o sentido original, ou então, usa-se uma linguagem distante daquela falada pelo povo. Por isto mesmo, existem, hoje inúmeras tradições: A Bíblia Ave Maria (da Editora Ave Maria), a Bíblia de Jerusalém – BJ (ed. Paulus), a Bíblia Tradução Ecumênica - TEB (ed. Loyola e Paulinas), a Bíblia Pastoral (Ed. Paulus), etc. Todas elas se propõem um objetivo. As Bíblias de Jerusalém e a TEB querem ser traduções técnicas, principalmente usadas nas escolas de teologia. A Bíblia Pastoral quer ser uma tradução popular, ou seja, uma linguagem simples, compreensível para todos. Agora, neste ano saiu também a nova edição da Bíblia Sagrada, Tradução da CNBB. Esta tradução quer ser a oficial da Igreja. “Esta tradução, para ouvir e guardar no coração, servirá de referência para a Igreja Católica no Brasil. Dela extrair-se-ão os textos citados nos documentos eclesiais. Concebida com vistas à proclamação, destina-se à leitura comunitária e individual... (Apresentação). A seguir veremos uma comparação de um mesmo texto (Mc 10,42-44) extraído da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia Pastoral e da Tradução da CNBB:

BJ
“Chamando-os, Jesus lhes disse: ‘Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”
CNBB
“Jesus então os chamou e disse: ‘Sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os seus grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos”.
Pastoral
“Jesus chamou-os e disse: “Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes têm autoridade sobre elas. Mas, entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos”.

Note-se, que a linguagem da Bíblia de Jerusalém é técnica. Preocupa-se com a presteza, mas não apresenta uma linguagem fácil para leituras públicas. Não se costuma iniciar frases pelo verbo, pois elas podem não ser entendidas pelos ouvintes. Já a Bíblia Pastoral usa a terceira pessoa. Ao invés de dizer “vós”, diz: “vocês”. Assim, de fato, fala o povo. Porém, numa leitura em público, a terceira pessoa, às vezes deixa margens de dúvidas quanto ao sujeito. Exemplo: “Mário derrubou a sua casa. Trata-se da casa de Mário, ou da casa de quem ouve a frase? Por isto, a Tradução da CNBB difere da Bíblia de Jerusalém e da Pastoral. Quer ser uma tradução de excelente qualidade, precisa para leituras públicas, mas sem o aparato técnico da Bíblia de Jerusalém, que oferece muitas notas explicativas, referências a outros textos próximos e paralelos, etc.

3 – Interpretação de textos

A Bíblia, por ser de outro tempo e de outra cultura, nem sempre é de fácil compreensão. Não se pode ler a Bíblia como se ela tivesse sido escrita no Brasil nestes últimos anos. É preciso ler a Bíblia, levando em conta seu texto e seu contexto, onde foi escrita. Um exemplo típico é a visita de Jesus à casa de Marta e Maria (Lc 10, 38-42). Jesus entra na casa destas duas mulheres. Marta se ocupa dos serviços domésticos, enquanto Maria senta aos pés do mestre, ouvindo suas palavras. Marta repreende sua irmã e é repreendida por Jesus. Uma leitura simplista diz que a Bíblia quer nos ensinar que é preciso parar e ouvir a Palavra de Jesus. Mas esta leitura é feita a partir de nossas correrias de hoje e não leva em conta o contexto do texto. A realidade é outra. Nos tempos de Jesus, a mulher era muito marginalizada. Jamais algum mestre entrava em casa de uma mulher. Nem se devia cumprimentá-la. Ela não recebia nenhuma instrução. A educação religiosa era apenas para os homens. Um mestre da época dizia: “quem ensina a Bíblia para sua esposa ou para sua filha, prostitui as mesmas”. No culto as mulheres não tinham nenhuma participação. As mulheres deviam ser dóceis aos maridos e aos pais. Sua função era apenas cuidar da casa e dos filhos. Jesus inverte completamente esta situação. Faz o que nenhum mestre de seu tempo fazia: entra na casa de duas mulheres (Marta e Maria). Em segundo lugar quebra os costumes da época, pois administra a Palavra de Deus à Maria. Nenhum mestre ensinava mulheres. Porém Marta era uma mulher que já tinha introjetado os costumes machistas de seu tempo. Ela, mesmo sendo mulher, pensa como os homens. Chama a atenção de Jesus e de Maria. Pede que Maria assuma seu papel de cuidar do serviço doméstico ao invés de ficar ouvindo a Palavra de Deus. Jesus mostra que a Palavra de Deus é também das mulheres. Assim contextualizado, o mesmo texto de Lc 10,38-42 diz muito mais do simplesmente intercalar trabalho e momentos de oração. O texto nos mostra que não devemos fazer discriminação de sexo. A Palavra de Deus é para todos. A mulher tem os mesmos direitos e a mesma dignidade.
Para se ter uma boa compreensão dos textos bíblicos, convém evitar a leitura salteada de versículos aleatoriamente. Convém ler os textos do início ao fim. Ler também as introduções que as traduções das Bíblias colocam. Ler as notas e comentários que muitas traduções também trazem. E por que não dizer? Ao amigo da Bíblia convém ler comentários bíblicos. Hoje, nas editoras cristãs (Loyola, Vozes, Paulinas, Paulus, Sinodal, Cebi) existe muito material de excelente qualidade, inclusive material bem simples, popular, ao alcance de todos. Só assim poderemos fazer uma leitura contextualizada e proveitosa, evitando o fundamentalismo empobrecedor.

A Bíblia em nossa vida

Bruno Glaab

Para os cristãos, bem como para os judeus e também alguns outros grupos religiosos, a Bíblia é um livro de extraordinária importância. Mesmo pessoas sem fé lêem a Bíblia. Porém, nem todos lêem a Bíblia da mesma maneira. Ou melhor, nem mesmo todos os cristãos, ou todos os católicos lêem a Bíblia com os mesmo critérios. Para alguns, a Bíblia é um livro mágico onde se pode buscar soluções para todos os problemas da vida. Livro de saídas para todas as situações difíceis que afligem a humanidade: crises na família, desemprego, doenças, etc. Para outros a Bíblia é um livro de mistérios, onde se pode decifrar o futuro. Ainda para outros, a Bíblia é o livro das verdades prontas e absolutas que se pode e deve aplicar diretamente na vida. Basta ler a Bíblia e saber exatamente o que Deus quer da humanidade e reserva para ela. Qualquer frase bíblica é dogma inquestionável. Pior ainda, pessoas de certo nível intelectual zombam da Bíblia por julgar que ela está em contradição com as ciências, pois entendem a Bíblia como livro de ciências e de história. E, como hoje, as ciências desmentem alguns textos bíblicos, classificam toda a Bíblia como uma coleção de mitos pré-científicos, sem maior valor. Estas visões todas, na realidade, são viciadas. Transformam a Bíblia naquilo que ela não quer ser, ou melhor, naquilo que ela não é e nunca foi. Por isto mesmo, no mês da Bíblia queremos refletir sobre o real sentido deste livro, ou melhor, desta biblioteca, pois a Bíblia é formada por 73 livros.

O que buscar na Bíblia?
A Bíblia serve para “comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,15-17). Assim sendo, a Bíblia não pode servir para uma leitura fundamentalista ou ingênua, como se ela nos ensinasse história ou geografia, ou qualquer outra ciência. Menos ainda se deve transformar a Bíblia num livro de previsão de futuro. Ela não ensina nada sobre o fim do mundo. Costuma-se dizer: se alguém quer saber como foi o início do mundo, ou como será o fim do mundo, não deve buscar na Bíblia, pois nela nada disto se encontra. Simplesmente a Bíblia não ensina ciências e não faz previsões de futuro. É simples, nos tempos bíblicos não se conhecia nossas ciências de hoje. Nada se sabia de química, de física, de biologia ou de outras ciências de nossos tempos. Os escritores dos textos sagrados não conheciam o que nós hoje conhecemos e Deus nunca revelou ciências, mas apenas se revela a si. Para o conhecimento das ciências Deus deu a inteligência e o espírito de busca para o ser humano. Quanto às previsões de futuro, a Bíblia se manifesta contra tal prática (Dt 18,13-14).
Não se pode, também, cair na tentação fácil de ler a Bíblia com uma fé ingênua sem levar em conta o contexto em que ela nasceu. Não ver cada texto como uma verdade absoluta que deve ser obedecida às cegas, como se em cada frase da Bíblia estivesse uma verdade inquestionável. Ex.: Em Dt 13,7-11 se manda matar quem pratica a idolatria. Em Lv 20,10ss manda matar os adúlteros, homossexuais, etc. Em 1Cor 11,2ss manda as mulheres cubrir a cabeça, que tenham cabelos longos, que sejam inferiores aos homens, etc. Tudo isto eram preocupações concretas dentro de seu contexto, mas que, para nós hoje não têm sentido. Não podemos matar nenhum adúltero ou idólatra, nem sequer podemos aceitar a inferioridade da mulher ou obriga-a a usar cabelos longos, ou a cobrir a cabeça. A mulher com cabelos longos não é em nada superior à mulher de cabelos curtos. Tudo isto é fundamentalismo que mais traz problemas do que soluções. Portanto, ler a Bíblia assim, faz mal à fé e à vida comunitária e leva as pessoas ao fanatismo. Muitas guerras e perseguições já aconteceram por causa dos fundamentalismos.
Ora, se a Bíblia não é livro de ciências ou de história, nem de previsões, ou de soluções milagrosas, não traz verdades prontas para serem consumidas, para que serve, então? A Bíblia é uma coleção de livros, que antes de serem escritos, ao menos boa parte, eram a tradição de um povo que fizera sua experiência com Deus. Ou seja, um povo que fez uma experiência com Deus. Esta experiência mostra a bondade e o amor de Deus. Mostra também a maneira como homens e mulheres responderam a este amor de Deus. Muitas vezes estes homens e mulheres foram fiéis, outras vezes, nem tanto. Às vezes respondiam com amor, outras vezes se matavam em nome deste mesmo Deus. Apesar destas imperfeições humanas, Deus não os abandonou. Deus fez história com esta gente, porque seu amor é infinito. Assim, desde as primeiras páginas da Bíblia, encontramos coisas lindas e edificantes, mas também encontramos cenas de terror, de guerra, de matança, etc.
Na plenitude dos tempos Deus enviou seu Filho (Hb 1,1ss; Jo 1,1ss), isto é, o Filho, que desde o princípio existia, assumiu a natureza humana com o nome de Jesus (Jo 1,14). Nele temos a plenitude da Revelação. Notemos que, quando se diz a plenitude da Revelação, isto não significa que Jesus nos revelasse tudo sobre Deus. Isto nem sequer caberia dentro de nossas inteligências. Deus não revela seus mistérios. Antes, aqui se quer afirmar que em Jesus temos o caminho que definitivamente nos leva ao Pai (Jo 14,6). Ou seja, tudo o que precisamos para chegar ao Pai, encontramos em Jesus. Não precisamos de novas “revelações”. Jesus é o caminho definitivo.
Dito isto, voltamos à pergunta inicial: o que buscar na Bíblia? A resposta é: nem tratados de ciência, nem história das origens do mundo, nem previsões de futuro, nem soluções milagrosas para qualquer situação humana, nem também verdades absolutas, prontas para serem obedecidas às cegas. Na Bíblia, a partir da fé e da oração buscamos perceber como Deus agiu no passado com seu povo, pois assim ele também age hoje conosco. Portanto, na Bíblia conheceremos a verdadeira imagem de Deus. Não no sentido de sabermos tudo sobre Ele, ou conhecer seus mistérios, mas conhecemos sua bondade, sua presença, seu projeto para nós. Na Bíblia conhecemos a Deus e também nos conhecemos a nós mesmos. Portanto, a Bíblia é sempre uma luz para iluminar a nossa caminhada. Na Bíblia nós percebemos como é o ser humano e como é Deus. Certamente nós, hoje, não somos muito diferentes dos homens e mulheres dos tempos bíblicos, embora hoje tenhamos outra compreensão de mundo. Percebemos como Deus tratou o ser humano nos tempos bíblicos e esta luz serve para nós hoje, pois assim ele também nos trata. Imaginemo-nos na pele do filho pródigo (Lc 15,11ss), na pele dos pecadores à mesa com Jesus (Mc 2,15ss), etc. A partir desta percepção de Deus e desta percepção de ser humano, a Bíblia nos revela como precisamos viver para realizarmos a nossa humanidade em plenitude, já aqui na terra, para depois culminar na eternidade.

Como entender a Bíblia?
É difícil responder a esta pergunta. Não se pode dar receitas prontas em poucas linhas. Assim como nenhum médico poderia escrever um artigo, no qual ensinasse como praticar a medicina, também nenhum professor de Bíblia pode escrever um artigo ensinando como interpretar a Bíblia. As dificuldades de compreensão sempre existiram (2Pd 3,16). Mesmo assim, tentaremos alguns passos que nos ajudem a entrar melhor neste livro:
1) Estudar a história que perpassa a Bíblia. Quando se conhece bem a história, desde a formação inicial do povo da Bíblia até o fim do Novo Testamento, pode-se entender quais os problemas e motivações que influíram para a formação de cada livro que hoje temos na Bíblia. Existe muito material bibliográfico nas boas livrarias, inclusive muitas Bíblia têm, além das introduções, das notas, apêndices no fim do livro, onde se dá uma visão da história. Ex.: a Bíblia de Jerusalém, Teb, etc;
2) Antes de ler um texto bíblico, ler as introduções que as próprias Bíblias trazem para cada livro bíblico. De preferência, ter duas ou mais traduções da Bíblia (Pastoral, de Jerusalém, Teb, Peregrino, etc.). As introduções nos situam em que época cada livro foi formado, bem como os motivos. Isto é muito importante para a compreensão dos mesmos. Assim como temos dificuldades de entender qualquer conversa de amigos quando os ouvimos, mas não sabemos do que estão falando, assim também acontece com a Biblia: ler um texto sem antes ler a introdução é como ouvir conversa de amigos sem saber do que estão falando.
3) Acostumar-se a ler os livros bíblicos do início até o fim, evitando a leitura aleatória de pequenos textos, ora de um livro, ora de outro. Assim nunca se poderá entender o todo. Existe certa piedade popular que usa caixinhas de cartolina com algumas milhares de frases bíblicas. Cada dia se tira uma frase bíblica para alimentar a espiritualidade. Isto é um acinte, pois acaba deformando a Bíblia. Como se vai entender a Bíblia se só lemos frases avulsas. Entenderíamos as novelas se num dia ouvíssemos uma frase de um ator e no dia seguinte ouvíssemos a frase de outro autor, de outra novela, ou de outro capítulo? Certamente não entenderíamos nada.
4) Lembrar que na Bíblia existem muitos gêneros literários. Cada gênero literário deve ser lido à sua maneira. Ex.: os livros de Jonas e Jó são espécie de novelas, ou seja, algo parecido com peças de teatro. Os livros dos Reis e de Samuel são livros históricos, emquanto Isaías e Jeremias são livros proféticos. Logo, estes livros não podem ser lidos como se fossem todos livros de história. É um absurdo ler Jonas e Jó como um fato histórico. Os primeiros 11 capítulos de Gênesis são simbólicos e não histórico-científicos. O Apocalipse usa uma simbologia velada. Portanto, buscar nestes capítulos explicações históricas para a origem ou para o fim do mundo é uma ingenuidade. Bem, dirão o leitor e a leitora: como poderemos conhecer gêneros literários? Talvez o item dois: ler as introduções das Bíblias pode nos ajudar, ao menos um pouco. É bom também fazer visita às livrarias católicas e adquirir material popular sobre Bíblia. Quem quer entender, necessariamente precisa se acostumar a ler.
5) Ir à Bíblia com fé e oração, de preferência, em comunidade. Não se pode estudar a Bíblia como se estuda qualquer livro de ciência. A Bíblia não é livro de ciência, mas o livro da Revelação de Deus. Estudar apenas para saber não vale a pena. Deve-se estudar para saber e, principalmente, para viver. A Bíblia quer se transformar em vida, ou seja, ela é luz que ilumina a nossa caminhada. De nada adianta ler a Bíblia se não fizermos a nossa caminhada à luz da Bíblia.
6) Estudar e meditar a Bíblia com freqüência. Ou seja, dar tempo à leitura e meditação bíblicas. Nada se aprende sem esforço. Imaginemos se diariamente lêssemos, ao menos um capítulo de determinado livro bíblico. Depois de alguns anos teríamos uma imagem de toda Bíblia em nossa cabeça e, mais do que isto, em nosso coração e em nossa vida.

Livros prioritários
Toda Bíblia é inspirada por Deus e é Revelação. Logo devemos aceitar todos os 73 livros da Bíblia, evitando ler o que nos interessa e deixar de lado o que não nos convêm. Mesmo assim, é importante saber que, para nós cristãos, o centro da Bíblia são os quatro evangelhos, pois neles encontramos a palavra de Jesus. E Jesus é, para nós, o centro de toda a Revelação de Deus. “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos” (Hb 1,1-2). Por isto mesmo afirmamos: Jesus é a plenitude da Revelação. Ninguém precisa de outras revelações (e como surgem tantas outras supostas “revelações”! E como muita gente corre atrás destas supostas “revelações”!). ou melhor, não existem outras “revelações” necessárias, pois Jesus Cristo é a plenitude da Revelação. Jesus é a Revelação do Pai. Tudo o que o Pai quis nos Revelar, ele o fez em Jesus. Depois de nos termos apropriado dos quatro evangelhos é oportuno ler também os demais livros do Novo Testamento (Atos dos Apóstolos, Cartas e Apocalipse), pois eles são o evangelho aplicado ao seu tempo. Estes livros nos ensinam a entender Jesus. Por fim, para poder entender o Novo Testamento, convém, também ler o Antigo Testamento. Pois sem uma compreensão do Antigo Testamento nunca entenderemos o Novo Testamento. Além do mais, como afirmamos acima, Deus também se revela no Antigo Testamento. Por isto, também no Antigo Testamento podemos priorizar alguns livros, mas todos têm seu lugar. Se quisermos priorizar, poderíamos falar no livro do Êxodo, pois nele está o fundamento da antiga aliança. Depois do Êxodo, poderíamos olhar com mais atenção alguns livros históricos (Js, Jz, 1-2Sm, 1-2Rs, 1-2Mc, etc.) e depois escolher alguns livros proféticos (Amós, Isaías, Jeremias, etc.) e alguns sapienciais (Sl, Sb, Eclo, etc.). Sempre, no entanto, lembrando que é bom ler todos os livros da Bíblia.

Pontos principais da Bíblia
O que uma pessoa de fé deve buscar na Bíblia? Quais os pontos principais? Ou na Bíblia tudo tem o mesmo valor?
1) O ponto mais elevado da Bíblia certamente é o Reino de Deus instaurado por Jesus Cristo, ao qual nós, como discípulos/as de Jesus, queremos aderir. Portanto, não se trata de buscar ciências ou mistérios na Bíblia, mas perceber os valores do Reino, para também nós, em nossa realidade, vivê-los;
2) As exigências de viver o Reino de Deus em nossa vida e em nossas comunidades. Não se trata de buscar soluções milagrosas na pessoa de Jesus, nem facilidades para a nossa vida; mas, a exemplo da oração ensinada por Jesus (Mt 6,9-14) elucidar os nosso compromissos com o Reino para que ele venha.
3) Buscar a salvação em Jesus Cristo. Lembrando sempre que salvação não é um processo individual que se obtém pela observância de mandamentos, mas antes, é um processo comunitário que se obtém pela adesão a Jesus Cristo. É Ele que nos justifica (Gl 2,16). A nós cabe a adesão pela fé que se traduz pela vida comunitária, eclesial e compromisso com a vida. Convém ainda dizer que, salvação não é algo apenas para depois da nossa morte. A salvação começa aqui e agora. Ela é o início do Reino de Deus que culmina na eternidade;
4) Experimentar como Deus, cheio de bondade, entrou na vida das pessoas humanas, desde os primeiros livros da Bíblia e fez história com estas mesmas pessoas, apesar dos pecados e infidelidades. Como Deus sempre de novo mostrou seu amor, perdoando e iluminando, conduzindo estas pessoas até a última página da Bíblia. Pois assim como ele agiu, ele age. Isto mostra que também hoje Deus está em nossa história, apesar de nossas infidelidades e pecados. A Bíblia, nesta perspectiva, quer ser um farol que ilumina o nosso caminho de hoje.
5) Perceber a imagem de Deus e de ser humano que a Bíblia nos revela. Desde o início da Bíblia até o fim percebemos diversas imagens de Deus e diversas imagens de ser humano. Muitas vezes temos um Deus amigo, preocupado com a vida, a liberdade e a fartura (Ex 3,6ss) e por conseqüência temos a imagem de um ser humano livre, saciado e amado. Outras vezes temos a imagem de um Deus ciumento e vingativo (Ex 20,2ss). Às vezes temos um Deus da justiça (Is 1,10ss; Is 58,1ss, etc.) Outras vezes temos um Deus da Lei (Lv 11ss). Todas estas visões do Antigo Testamento, ainda deficitárias, culminam na pessoa de Jesus Cristo que nos revela um Pai comprometido com a vida (Mt 6,9ss), que ama o mundo (Jo 3,16), que se alegra com a volta dos filhos (Lc 15,11ss) e do próprio Jesus que veio para que todos tenham vida (Jo 10,10), que se compromete com os fracos (Lc 4,14ss), etc. A verdadeira imagem de Deus nos é dada por Jesus. De todas estas imagens de Deus e de Jesus Cristo se depreende que imagem de ser humano a Bíblia nos revela, isto é, um ser humano com dignidade;
6) Alimentar a espiritualidade. A leitura bíblica sistemática e aprofundada é como os ascramentos e a oração, alimento para a nossa espiritualidade;
7) Prestar o verdadeiro culto a Deus. De tudo o que apontamos anteriormente, podemos concluir que, o melhor culto prestado a Deus é o compromisso com o ser humano. A Bíblia sempre liga amor a Deus a amor ao próximo. Assim faz o Antigo Testamento (Is 1,10ss; Is 58,1ss), assim o faz Jesus (Lc 10,25ss).

A contemporaneidade da Bíblia
A Bíblia, embora formada e escrita há tanto tempo, é uma coleção de livros bem atuais. Se ela não ensina ciências, nem faz previsões, nem sequer tem soluções milagrosas, ela nos faz experimentar Deus e a nossa própria dignidade humana. Convém, então, desmitologizar a Bíblia e lê-la para o mundo de hoje. Antes de ver nela história, ciências, ver nela a imagem de Deus e do ser humano. Ver como Deus caminhou com seu povo, como foi fiel, como enviou seu Filho para a nossa remissão. Pois, embora nosso mundo seja muito diferente daquele da Bíblia, as situações vitais do ser humano hoje, não são muito diferentes. O ser humano, para realizar suas potencialidades plenamente, precisa de Deus. Ou seja, o ser humano não se basta a si mesmo. A busca de Deus para que o ser humano realize a sua plenitude se dá de muitas formas: pela vida comunitária, pela oração, pela freqüência aos sacramentos e, principalmente pelo amor ao próximo. Aliás, diríamos, o primeiro passo do ser humano é necessariamente o amor. As celebrações, a oração, os sacramentos são sempre o segundo momento. Sem o amor tudo isto perde o sentido. Ou seja, o ser humano que não ama não tem nada a celebrar, tem oração vazia, ou nem tem porquê rezar ou freqüentar sacramentos.
A Bíblia fundamenta o nosso amor, ou melhor, ilumina o nosso amor. Mesmo nas situações de maior crise, a Bíblia sempre de novo nos mostra como amar ao nosso semelhante e a Deus. Pois o amor a Deus passa pelo amor ao próximo (1Jo 4,20). A fidelidade a Deus é fidelidade ao povo. Portanto, a Bíblia é o facho de luz que, em primeiro lugar fundamenta o nosso amor a Deus e ao próximo, é também o fundamento de nossas celebrações, de nossa oração e de nossos sacramentos. Sem a Bíblia, toda a nossa vida cristã cairia no abismo. Perderia completamente seu fundamento.

Conclusão
A Bíblia não é livro mágico, nem milagroso, nem outra coisa qualquer. Antes, a Bíblia é o fundamento de nossa fé, de nosso amor, de nossa vida comunitária, de nossa prática eclesial. Por isto, quem quer conhecer verdades absolutas prontas para o consumo, ciências, mistérios do além, ou quem quer milagres para facilitar a vida não deve buscar na Bíblia. Nada disto vai encontrar. Quem, no entanto, quer seguir a Jesus Cristo, ter uma fé mais viva, um compromisso comunitário mais autêntico, uma vida de oração mais encarnada e uma pratica sacramental mais coerente, deve reavivar seu amor na Bíblia, pois ela é o fundamento do amor e da vida eclesial.