quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O PURGATÓRIO


Divagações sobre o futuro

Frei Jerónimo Bórmida

Trad. Frei Bruno Glaab

Um Teologúmeno

Estamos diante de um dos pontos controvertidos no diálogo ecumênico. Karl Rahner aplicaria à doutrina sobre o purgatório a noção de teologúmeno, que é , antes de tudo, resultado e expressão do esforço para entender a fé.

Teologúmeno é uma formulação teológica que não equivale de modo imediato a uma proposição dogmática que obriga à fé, e não é necessário que o enunciado se distinga materialmente de uma tese de fé propriamente dita.

A doutrina oficial da Igreja não consta, nem pode constar somente de dogmas no sentido estrito, mas está composta sobretudo de uma série de proposições teológicas que, sem possuir uma absoluta obrigatoriedade de fé, ela tem sido generalizada e aceita na comunidade eclesial.

A revelação cristã se transmite sempre por meio de teologúmenos: fala em harmonia com o saber e as crenças do momento em que é pronunciada a palavra. A Bíblia somente é compreensível à luz da imagem do mundo que tem o destinatário da palavra; integra os conceitos, os valores, a imaginação, os paradigmas morais e intelectuais próprios de cada tempo e lugar. E o que a DV 13 chama a admirável condescendência da sabedoria eterna, para que conheçamos a inefável benignidade de Deus, e de quanta adaptação de palavra faz uso tendo providência e cuidade de nossa natureza. Porque as palavras de Deus expressadas com línguas humanas se tem feito semelhantes à fala humana, como em outro tempo o Verbo do Pai eterno, tomada a carne da debilidade humana, se fez semelhante aos homens.

A história da teologia equivale à gesta dos constantes câmbios dos teologúmenos. Este devir não significa que se reconheça um dia como errôneo o que antes se tinha por verdade absoluta, senão que supõe a lei da encarnação das afirmações à cambiante experiência histórica.

A doutrina da Escritura

Segundo o V Concílio de Latrão (1512-1517) Lutero afirma que o purgatório não pode ser provado pela Escritura Sagrada Canônica. Os polemistas católicos responderam multiplicando as provas de Escritura recorrendo a textos isolados de seus contextos em base a uma exegese acomodatícia, carregada de pré-juízos dogmáticos. Lemos em 2Mc 12,40-46 que nos cadáveres dos soldados mortos na batalha contra Gorgias se encontravam objetos do culto idolátrico, ato severamente proibido pela Lei. Judas espera que os soldados que tem morrido em defesa da religião e da pátria encontrem o perdão de deus e participem na ressurreição, para os quais faz uma coleta e manda oferecer um sacrifício pelo pecado no templo de Jerusalém.

Os defuntos justos esperam a ressurreição para a vida (2Mc 7,9-14), porém presumidamente no seio de Abraão. Embora os soldados incorressem em grave pecado de idolatria, Judas Macabeu opina que se trata de mortes em certo sentido martiriais, por isso ordena que se ofereça por eles o sacrifício expiatório. Paulo afirma em 1Cor 3,10-17 que os apóstolos terão de selecionar cuidadosamente os materiais que usam na edificação da igreja, pois a obra de cada qual será descoberta; se manifestará pelo fogo (v.13). aquele cuja obra resista ao fogo receberá a recompensa. Se sua pregação não resistir à prova, o apóstolo será salvo, porém como quem passa através do fogo (v.14-15).

Bento XVI, em 12 de janeiro de 2011, na catequese das quartas-feiras fala de Santa Catarina de Gênova, uma das referências místicas, ao falar do purgatório. A santa fala do caminho de purificação da alma até a comunhão plena com Deus, partindo de sua própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em contraste com o infinito amor de Deus. Não estamos, disse a santa, que o purgatório é um fogo interior, é um caminho de purificação da alma até a comunhão plena com Deus. O fogo, esclarece Bento, é o mesmo Cristo.

Um texto da escola rigorista de Shammai (metade do século Iº d.C.) afirma que: há no juízo três categorias de homens: uns são para a vida eterna; outros, os completamente ímpios, para a vergonha e opróbrio eterno; os médios (que não são nem de todo bons, nem de todo maus, e guardam um lugar intermédio) descem à Geena para ser esmagados e purificados; logo sobem e são curados. Mas além dos textos citados encontramos certas idéias gerais clara e repetidamente ensinadas na Bíblia:

1. Apenas uma absoluta integridade é digna de ser admitida à visão de Deus.

2. Não podemos negar a responsabilidade humana no processo da justificação, assim ser humano tem que envolver-se pessoalmente na reconciliação com Deus.

3. O homem tem que aceitar as consequências que se derivam dos próprios pecados.

É tão curioso como obscuro o texto de 1Cor 15,29 que alude a um rito de batismo pelos mortos, sem que Paulo esclareça o sentido deste rito, nem faz um juízo sobre ele. Em 2Tm 1,16-18 Paulo, vivo, faz uma súplica em favor de um cristão, chamado Onesíforo, que lhe ajudou em momentos difíceis e que, segundo todos os indícios, havia morrido, para que encontre misericórdia diante do senhor no dia do juízo. Estamos diante de um testemunho da primeira hora – as cartas pastorais – aonde já aparece a prática da intercessão de um cristão vivo (Paulo) por outro já falecido. Por último deve-se deixar bem claro que o tema do purgatório é compreensível no contexto da doutrina da graça e as discrepâncias ecumênicas partem de como se entendem a justificação e o perdão dos pecados.

História do Teologúmeno

Os testemunhos abundam em orações (litúrgica ou privadas) pelos defuntos, cobrem toda a tradição da Igreja, desde indicações das catacumbas e cemitérios cristãos até o presente. Desde os primeiros séculos era comum a prática da oração pelos mortos nas igrejas de Roma, África, Síria, Jerusalém. É de destacar a memória dos fiéis defuntos na celebração eucarística, atestada pelos padres antigos.

Tertuliano disse que o tempo que vai da morte até a ressurreição é uma época de cárcere, durante o qual a alma tem a oportunidade de pagar até o último centavo de sua dívida, libertando-se para a ressurreição. Clemente de Alexandria fala de uma transformação ascendente do homem que se vai transformando em um corpo com uma perfeição cada vez maior até que nele se realize o grau supremo da corporeidade pneumática, o pleroma, chegando então à consumação.

São Cipriano escreve na primeira metade do século III: uma coisa é não sair da prisão até pagar a última moeda e outra, receber sem demora, o prêmio da fé da coragem; uma, purificar-se dos pecados pelo tormento de grandes dores e purgar muito tempo pelo fogo... e outra, ser coroado em seguida pelo Senhor. A partir daí são freqüentes as refernãoencias ao purgatório, sobretudo em Santo Agostinho. No Ocidente influiu, na formulação do teologúmeno o desenvolvimento teológico da noção de satisfação, especialmente a partir de Santo Anselmo. Deus soberano absoluto não pode fazer uso de sua misericórdia sem exigir uma satisfação que só o sangue inocente de Cristo pode oferecer. Na Idade Média se dinstingue entre a culpa (reatus culpae) que Deus pode perdoar e a Igreja absolver e a pena (reatus poenae) que o transgressor carrega sobre seus ombros até pagar sua dívida com a sociedade e com Deus.

Os teologúmenos do Oriente receiam fortemente dos hábitos mentais e di vocabulário dos colegas latinos. Os gregos entendiam o purgatório como um mero estado, não como um lugar, não aceitavam a imagem de fogo, como se fosse um inferno temporal. Consideravam o purgatório como um estado de purificação, no qual os defuntos amadureciam para a vida eterna pelos sufrágios da Igreja, e não pela graça de uma sentença. Os orientais pensam a justificação em chave de divinização, que vai devolvendo ao homem a imagem de Deus por um processo paulatino de purificação.

Com a Reforma, o século XVI trouxe outro período crítico para a doutrina sobre o purgatório. Lutero, no princípio se limitou a assinalar que não se fala de purgatório nas Escrituras canônicas. Parece que no princípio seguiu crendo em sua existência, baseando-se principalmente na tradição patrística, retratando-se logo, porque a noção de purgatório contrasta frontalmente com a concepção luterana da justificação.

O purgatório põe em causa a suficiência da satisfação de Cristo e põe no homem a capacidade de operar, por si mesmo, a consumação do processo salvífico. Se a justiça de Cristo é superabundante e cobre com excesso os pecados mais graves, como admitir que o justificado ainda tenha que ser purificado, antes de seu ingresso no céu?

Trento alude ao purgatório só em um cânon do decreto sobre a justificação. Este cânon situa o tema dentro da temática do processo de remissão dos pecados e santificação do homem. No plano disciplinar Trento proíbe expor a doutrina do purgatório como questões inúteis, de questões sutis que não contribuem com a edificação, nem com a piedade do povo, e resultam em curiosidades e superstições, nas quais abundam os pregadores.

Em Roma existe um museu do purgatório, fechado ao público nos contextos do Vaticano II. Se exibem mostras macabras das marcas deixadas por almas atormentadas pelo fogo.

Teologias

É errôneo conceber o purgatório como uma espécie de inferno temporal. Mais do que em expiação, deve-se pensar em amadurecimento. No Vaticano II se fala de purificar-se e não de purgar ou expiar, deixando de lado o termo usado sistematicamente nos documentos anteriores do magistério. Estamos diante de uma troca semântica intencionada.

Não estamos diante de uma espécie de campo de concentração, um cárcere no mundo dos mortos onde o homem tem que purgar penas que se lhe impõem ao estilo dos sistemas carcerários que ainda hoje nos enchem de vergonha. Espero que no próximo século se fale dos cárceres como uma das abominações da humanidade, assim como espero que a teologia e a piedade se envergonhem de suas idéias acerca do purgatório.

Hoje os teólogos tendem a conceber esta purificação como a experiência subversiva do encontro com fogo purificador do rosto em chamas de Cristo (Ap 1,14 = Dn 10,6). O mesmo Jesus é o fogo que julga e purifica, que faz o homem, conforme ao seu corpo glorificado (Rm 8,29; Fl 3,21). A purificação não se realiza por algo, senão pela força transformadora do encontro com Jesus, que acrisola purificando-nos de todas as nossas escórias.

Santa Catarina de Gênova (séc. XV) dizia: “Eu não creio que depois da felicidade do céu possa haver outra felicidade que se possa comparar com a do purgatório... este estado deveria melhor ser ansiado do que temido, pois as chamas dele são chamas de indizível nostalgia e amor”.

Congar dizia que no purgatória seremos todos místicos, quer dizer, todos seremos penetrados pelo ardente e purificador amor de Deus que iluminará nosso amor para o último e definitivo encontro. A concepção geográfica do purgatório cede seu lugar a uma compreensão processual. É como um processo pessoal no qual a pessoa vai superando suas contradições, seus egoísmos, até aquele momento final do encontro com Deus. O purgatório é o amor que purifica. O sofrimento é o outro lado da medalha do amor. É o lado do coração que sofre por não ter correspondido ao amor apesar de haver sido continuamente amado.

Purificar as imagens

É necessário purificar toda a escatologia (morte, juízo, céu, inferno, reino de Deus). Temos que limpar as imagens da pregação e da religiosidade populares de imagens absurdas incompatíveis com a fé em Jesus e no Pai de Jesus. O Espírito que faz que chamemos a Deus de Abba não pode haver suscitado idéias de um Deus cruel e implacável que castiga e se vinga do pecado do homem.

A imaginação dos pregadores traumatizou os fiéis que se aterrorizavam diante dos suplícios do purgatório, uma espécie de galeria de torturas cósmicas com salas com frio insuportável, de metal em fusão, como um lago de azeite em ebulição.

Além do mais se confundia tempo com eternidade, se falava de anos, meses, dias... Quem morria com o escapulário do Carmo tinha a promessa que Maria o tiraria pessoalmente do purgatório, ao mais tardar, no sábado seguinte à morte. Não riam, ainda que corem, das crenças populares. Paulo é perfeitamente consciente de que não tem chegado à meta, que não é perfeito, porém continua sua corrida para conseguir alcançar a Cristo, ainda que na verdade foi Cristo Jesus quem alcançou a Paulo, antes. “Eu, irmãos, no entanto, não creio havê-lo alcançado. Mas uma coisa eu faço: esqueço o que deixei para trás e me lanço ao que vem pela frente, correndo até a meta, para alcançar o prêmio a que deus me chama desde o alto em Cristo Jesus. Assim, pois, todos os perfeitos tenhamos estes sentimentos, e se em algo sentis de outra maneira, também isto Deus lhes esclarecerá. Além disto, desde o ponto a que temos chegado, sigamos adiante” (Fl 3,12-16).

Paulo não fala de purgatório, senão de um processo de crescimento na perfeição que ele mesmo busca correndo, sem haver ainda alcançado. Espera que Deus, que começou a obra boa, a termine até o dia de Jesus Cristo. Paulo pede, em sua oração, que o amor dos filipenses siga crescendo cada vez mais em conhecimento perfeito e todo discernimento, conhecimento que avalia o melhor dos crentes para ser puro e sem mancha para o dia de Cristo. Os frutos da justiça não provém do esforço humano, vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus (Fl 1,6-11). O homem está sempre chamado à maturidade do varão perfeito na medida plena da idade de Cristo (Ef 4,13).

Quando oramos pelos defuntos deveríamos suplicar ao Senhor que conceda aos que estão morrendo uma decisão reta e clara por Deus, que tenham uma rápida maturação humana e divina para que, acrisolados pelo fogo de Cristo, possa, florescer totalmente na vida de Deus.

A Práxis de Jesus

É muito difícil os ditos e feitos de Jesus que aludam à necessidade de penitência na outra vida. Ao ladrão que lhe solicita, diz que hoje mesmo estarás comigo no paraíso (Lc 23,43). O único que exige à pecadora pública é que vá e não peque mais (Jo 8,11). Nas aparições do ressuscitado não encontramos uma só censura por suas traições. Os chama de moços e lhes prepara pescado nas brasas (Jo 21,5-9)... Poderíamos completar muitas páginas com estas atitudes de Jesus. É certo que disse a Judas que seria melhor não ter nascido (Mt 26,5-9)... É muito duro com os dirigentes do povo, os chama de lixo condenado ao fogo, na Geena... O texto mais duro se refere ao juízo das nações que fará o Filho do Homem (Mt 25): “quando o Filho do Homem vier em sua glória acompanhado de todos os anjos, então se sentará em seu trono de glória. Serão congregadas diante dele todas as nações... O filho do Homem julgará a todas as nações, quer dizer, a todos os judeus e a todos os pagãos, os adoradores de ídolos... Não julgará pela observância da Lei e da pureza do culto: E ele separará uns dos outros como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Porá as ovelhas à direita e os cabritos à sua esquerda. A estes, lhes dirá: ‘apartai-vos de mim, malditos, ao fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25,31ss). São malditos os que não trataram aos pobres, aos despidos, aos presos, aos enfermos, os últimos da escala humana. São benditos os que foram solidários com o Filho do Homem sacramentado nos mais despossuídos de bens, de saúde, de dignidade. É a única vez que Jesus fala de fogo eterno em um inferno diabólico.

Não há nenhuma penitência, só festa para o filho que volta arrependido depois de haver caído na última das depravações (leiam-se as três parábolas da misericórdia de Lc 15). É o mesmo pai que provê todo o necessário para participar no banquete do reino, comida, vestidos, jóias...

Jesus, amigo dos publicanos, pecadores, prostitutas faz o que aprendeu da conduta de seu Pai deus. Eu os desafio a reler e voltar a ler o evangelho para ver se encontram alguma alguma citação que sustente o teologúmeno do purgatório.

A disciplina penitencial

Durante os séculos II e III a Igreja cresce, se expande numérica e geograficamente e contemporaneamente se nota uma diminuição na santidade de seus membros. Hermas é o primeiro que afronta o tema da conduta dos cristãos pecadores. Disse que é possível o arrependimento e a penitência. Anuncia, portanto, a segunda penitência da qual exclui os apóstatas e blasfemos contra o Senhor e os traidores dos servos de Deus. Precisa que esta oportunidade de uma segunda penitência depois do batismo é uma só, e que não deve tornar-se pretexto nesta ulterior possibilidade de tomar o pecado leve.

Paulatinamente se introduz a questão sobre a possibilidade ou não da reconciliação de certos pecados, e em particular os citados pela famosa tríade montanista: idolatria, homicídio e adultério. A controvérsia foi muito áspera e grave.

O mesmo Jesus afirma que se perdoará a todos os filhos dos homens, os pecados e blasfêmias, por muitas que estas sejam. Logo prossegue com uma afirmação, sobre a qual os Padres e os exegetas não se põem de acordo: o que blasfema contra o Espírito Santo, não terá perdão nunca. Será réu de pecado eterno (Mc 3,28-29). Se um irmão pecador não faz caso da Igreja, deve-se considerá-lo como gentio e como publicano (Mt 18,15-17). Paulo pede aos coríntios para não se juntarem com alguém que se chama cristão e é libertino, ganancioso, idólatra, difamador, bêbado ou bandido. Com alguém assim não se deve nem sentar à mesma mesa. Eliminem do grupo de vocês os malvados (1Cor 5,9-13).

A Primeira Carta de João, a epístola de Deus amor, afirma que se deve orar pelo irmão pecador, porém há um pecado que acarreta a morte. Não me refiro a este quando digo que rezem (1Jo 5,16-17).

Os pecados leves, ou também chamados cotidianos, se perdoam mediante a oração pessoal e comunitária, o jejum, as esmolas, as boas obras, ou por outras obras de piedade. A práxis penitencial se reservava para os pecados mortais, também chamados delitos, crimes, pecados capitais, pecados maiores mortais, mais graves... cometidos depois do batismo eram um mal serio, profundo, que penetrava a toda a pessoa e que por isto exigia um esforço doloroso e prolongado de conversão. Toda a comunidade devia dar testemunho e garantia da seriedade deste esforço e da sinceridade da conversão.

Se a oração coletiva da comunidade era insubstituível para os próprios membros caídos em pecado e sujeitos à penitência, mais apreciada era ainda a oração de quem havia derramado seu próprio sangue e havia sofrido por ser cristão.

Seguindo o exemplo de Estêvão, que rezou por seus próprios perseguidores, os mártires rezavam, também, pelos irmãos na fé caídos no pecado, intercedendo para que tivessem a possibilidade de voltar a entrar na comunidade. Desde os primeiros decênios do século III, a oração e a intercessão dos mártires é usada pelos penitentes para abreviar o tempo de sua permanência no grupo dos penitentes. Pela intercessão de um mártir da comunidade o bispo concedia ao penitente a indulgência, quer dizer, lhe perdoava toda, ou parte de sua permanência na ordem dos penitentes.

Tudo se pode fixar com o preço justo

Pouco a pouco vai se apossando das igrejas do Império Romano um critério de valoração jurídica do pecado que passa a ser transgressão de uma lei, mais que como uma ferida para na comunidade. No século IV a paz constantiniana e a proclamação do cristianismo como religião de estado põem em crise a prática penitencial, uma vez que os convertidos afluem em massa a integrar-se a igreja, movidos por motivos políticos e econômicos e sem passar pelo catecumenato. A Europa é invadida pelos bárbaros que impõem suas próprias concepções em matéria legal e de ressarcimento dos danos. Sempre é possível estabelecer uma soma de dinheiro a modo de arranjo entre as partes e pondo com isto fim ao pleito que há entre o ofendido e o ofensor. Para os germanicos cada delito tem seu preço. Aparecem, então, os chamados penitenciais, que são catálogos dos pecados em todas suas possíveis concretizações, inclusive as mais insólitas e estranhas. A cada pecado vai anexo uma penitência determinada e concretizada, indicada em mortificações, esmolas, peregrinações, jejuns, orações; a duração destas penitências é proporcional à valoração do pecado.

A penitência deixa de ser um ato público: o pecador confessa em privado, e o sacerdote aplica pena prevista para aquele pecado pelo penitencial. O pecador é absolvido tantas vezes quantas tem pecado, contanto que satisfaça as obras previstas nas penitências que hoje nos resultam muito curiosas. A título de exemplo:

Se um clérigo tem formulado o projeto escandaloso de ferir ou de matar seu próximo, jejuará durante seis meses a pão e água e se absterá do vinho e da carne; logo será autorizado a voltar ao altar (para oferecer a missa e comungar); O ladrão jejuará um ano (se é monge); O perjuro jejuará sete anos (se é monge ou clérico); o homicida (leigo) jejuará três anos a pão e água, sem levar armas e viverá em exílio. Depois destes três anos, voltará a sua pátria e se porá a serviço dos familiares da vítima, em substituiçãp que que foi assassinado. Assim poderá ser admitido à comunhão segundo o juízo do confessor. O leigo que se embriaga ou come e bebe vinho até o vômito, jejuará uma semana a pão e água. Quem mata por ódio ou por ganância a uma pessoa leiga, cumprirá quatro anos de penitência. O soldado que mata em guerra fará 40 dias de jejum. Quem beber vinho até o vômito, jejuará por 40 dias se for presbítero ou diácono; 30 dias, se é religioso; 12 dias, se é leigo. Quem trabalha em domingo, jejuará 7 dias.

As penitências previstas pelos pecados iam se acumulando até alcançar um número tão elevado de anos, que o pecador se encontrava na impossibilidade prática de cumpri-las. Por isto surgiram as equivalências ou comutações penitenciais. Alguns exemplos:

Comutação para um jejum de dois dias: recitar 100 salmos, umas 100 genuflexões, ou bem, 1500 genuflexões e 7 cânticos. Comutação por um jejum de um ano: passar três dias em uma igreja, sem beber, comer, nem dormir, totalmente nu, sem sentar-se; durante este tempo o pecador cantará salmos com os cânticos e recitará o ofício coral. Durante esta oração fará 12 genuflexões. Tudo isto, depois de haver confessado seus pecados diante do sacerdote e diante do povo. Outra comutação para o jejum de um ano: fazer 12 jejuns de três dias seguidos cada ano. Ou melhor, jejuar 100 dias a pão e água com a oração das horas.

Logo apareceu outra forma de comutação ou equivalência penitencial, ligada a sucedâneos sob a forma de multas, de celebração de missas, etc. Por exemplo: uma unidade monetária resgata 1 dia de jejum; o preço corrente de um escravo (homem ou mulher) resgata um ano de jejum; Vinte e seis moedas de ouro resgatam um ano de jejum; uma missa resgata sete dias de jejum; trinta missas resgatam um ano de jejum.

Esta introdução de dinheiro fez crise com os reformadores do século XVI. Um refrão alemão cantava que quando a moeda tinia na caixa, uma alma saltava do purgatório (so bald das Geld im Beutel klingt, eine Seele aus dem Fegfeur springt – assim que o dinheiro retine na caixa, uma alma salta do purgatório)[1].

Para uma valorização em termos econômicos tenha-se presente: 100 moedas de ouro dão direito a 120 missas; uma moeda de ouro dá direito a 2 missas; uma libra de ouro dá direito a 12 missas.

O Penitencial de Viena disse que: por sua conta o sacerdote poderá celebrar somente (sic) 7 missas ao dia; porém, se o pedem os penitentes, poderá celebrar quantas sejam necessárias, inclusive mais de 20 missas ao dia (sic). São Francisco prescreve, na Carta à Ordem: “Admoesto por isso e exorto no senhor, que nos lugares em que habitam os irmãos, se celebre só uma missa cada dia segundo a forma da santa Igreja. E se houver no lugar mais sacerdotes, contente-se cada um, pelo amor da caridade, em ouvir a celebração de outro sacerdote.

Neste contexto nascem mal as indulgências que se regem de fato por um cálculo matemático de penas e satisfação. A indulgência se pode obter por um ato piedoso (por exemplo, o canto da Salve rainha, a oração do Anjo do Senhor (Angelus), visitar uma igreja ou um altar, venerar as imagens ou relíquias de santos, etc.), ou por uma esmola em metálico (moeda) para construir ou restaurar igrejas, leprosários, escolas, pontes, caminhos e fazer obras de saneamento. Manda a primeira regra franciscana (cap.VIII): “os irmãos, se podem realizar, em favor destes lugares, outros serviços que não sejam contrários à nossa vida”.

Quando os papas lançam as cruzadas, asseguravam a entrada gloriosa na Jerusalém celeste aos que tomassem as armas para conquistar a Jerusalém terrestre. A esta graça papal se chamou de indulgência plenária, que supunha o estado atual de graça, quer dizer, a confissão sacramental prévia. Esta concessão pontifícia outorgava pleno perdão de todos os pecados e das penas eles merecidos, e dava total garantia de salvação eterna, assegurando a retribuição dos justos a todos os cruzados. Esta graça a recebiam os que matavam ou morriam na empresa do crucificado, e se estendia a todos os seus colaboradores e assessore. Recorde-se que se ganha o céu se antes se confessa e comunga com o propósito de matar.

A entrada de paradigmas evolutivos

Teremos que situar os teologúmenos da escatologia (Reino de Deus, ressurreição, céu, inferno, purgatório, juízo final) dentro dos paradigmas de um cosmos em perene evolução. Hoje é impensável uma criação feita de uma vez para sempre (seis dias, as mesmas espécies, os mesmos planetas...). O universo é o conjunto de todas as coisas existentes, é a comunhão de todos os sujeitos coexistentes. Estamos imersos em um imenso sistema de relações de todos com todos em todos os momentos e em todos os lugares, uma rede de interrelações, constituindo a sinfonia universal. Cosmos e homens constituem sistemas abertos. Cheios de virtualidades que podem realizar-se e que estão se realizando, antes e depois de nossa pequena existência terrena.

A lei suprema é a solidariedade entre todos os seres, pois somos todos interdependentes e necessitamos uns dos outros. Todos habitamos o universo como um evento de comunhão. A realidade global – o todo eu, e o todo tu – é como uma imensa entidade em perene nascimento-morte, em constante crescimento, progresso, elevação... Este seria o novo paradigma, desde o qual se relê, se reinterpretam todas as realidades escatológicas.

Cristo dá um nome próprio à escatologia cósmica: desde o princípio Deus tem disposto a Cristo como princípio, fim e subsistência de todas as virtualidades e possibilidades da evolução, até a maturidade e plenitude do homem no cosmos no Cristo total. A vida terrena não termina na morte. A vida terrena não é um descanso imóvel: é a sinergia, a capacidade de ser simbiótico, quer dizer, a capacidade de relacionar-se com todos em vista do equilíbrio dinâmico que cria espaço para todos.

O propósito da vida não reside na pura e simples sobrevivência, senão, na realização das potencialidades presentes no universo e que querem expressar-se. Nesta perspectiva deve se entender purgatório, fim dos tempos, ressurreição futura... O céu é puro dinamismo, como deus e sua dynamis santa.

Ideias Finais

O purgatório é o processo de purificação, de integração, de maturação, de crescimento que se acelera no momento da morte física. Ninguém se enfrenta com o purgatório sozinho, nem na vida terrena, nem na morte. Sempre estaremos acompanhados e não somente pela fé e a oração da Igreja, senão pelo mesmo cosmos em expansão.

Não se trata de um problema que guarde relação unicamente com a alma e Deus, mas antes de uma realidade eclesial, social e cósmica. Esta é a grande intuição da Igreja ao ensinar com firmeza a solidariedade dos vivos com os defuntos e o valor do sufrágio que têm nossas ações por eles. Trata-se, antes, do processo radicalmente necessário de transformação do homem, graças à qual se torna capaz de Cristo, capaz de Deus e, em conseqüência, capaz da unidade com toda a comunhão dos santos ecom a comunhão com todos os seres do passado, do presente e do futuro.

Mar de Plata, outubro de 2011



[1] Nota do tradutor.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

LA FELICIDAD

Frei Jerónimo Bormida
Paseo por la biblia


Los invito a otro paseo, manoseando la Biblia, de atrás para adelante, del medio hacia los costados… Tomando el texto recibido –la Biblia entera y cada una de sus partes- como el que goza de la inspiración y autoría divina. Teniendo en cuenta todos los aportes de la actual ciencia bíblica, pero sin dejar que la erudición impidiese el gozo del encuentro.
Me tomo la licencia de ofrecer una lectura mistagógica, al estilo de los padres. Creo que mis afirmaciones son fundadas, pero prescindo de todo aparato "crítico".
Leemos en el Apocalipsis (21, 1-4),
Luego vi un cielo nuevo y una tierra nueva - porque el primer cielo y la primera tierra desaparecieron, y el mar no existe ya. Y oí una fuerte voz que decía desde el trono, «Esta es la morada de Dios con los hombres. Pondrá su morada entre ellos y ellos serán su pueblo y él Dios - con - ellos, será su Dios.
Y enjugará toda lágrima de sus ojos, y no habrá ya muerte ni habrá llanto, ni gritos ni fatigas, porque el mundo viejo ha pasado.»
Dice el Catecismo de la Iglesia católica, n. 1024, En el credo proclamamos la fe en la vida eterna. La llamamos el cielo, que es la realización de todos los deseos humanos. Cielo es el fin último y la realización de las aspiraciones más profundas del hombre, la dicha suprema y definitiva.
El cielo que deseamos es alegría, goce, gozo, placer, deleite, disfrute. En el cielo nos deleitaremos con el poder disfrutar de Dios. No regocijaremos con la compañía de los seres queridos, compartiremos la dicha de la creación recién nacida.
El cielo es bienaventuranza, es alegre, es divertido. Es la realización del principio-esperanza del hombre, la convergencia final y completa de todos los deseos de ascensión, realización y plenitud del hombre en Dios.
Como simboliza o sintetiza la absoluta realización del hombre en cuanto sacia su sed de infinito, el cielo es simplemente sinónimo de Dios. En el Nuevo Testamento el cielo equivale a Jesucristo Resucitado.
Cuando lleguemos al cielo, entonces seremos hombres, hombres tal como Dios nos quiso desde toda la eternidad, como imagen y semejanza perfecta de él, dice San Ignacio de Antioquia, aludiendo a Gen 1,26. 2
La Vida eterna es la victoria definitiva del amor sobre la muerte, una nueva forma de existencia, la meta del proceso de divinización iniciado en el tiempo por el don del Espíritu.
Cielo es la visión-fruición de Dios y ésta es la divinización del hombre.
Jesús emplea frecuentemente las imágenes del banquete mesiánico y el convite nupcial. (Mt 22,1-10; 25,1-10; Lc 12,35-38; 13,28s; 14,16-24) Dice San Agustín que en ese banquete están todos los justos y santos, que disfrutan del Verbo de Dios.

La Felicidad en la Biblia


Feliz quien cumple la Palabra de Dios


Dios nos pone delante de los ojos tanto la vida y felicidad como la muerte y desgracia. Si optamos por escuchar y guardar la palabra de Dios, si seguimos sus caminos tendremos vida y descendencia y él nos bendecirá en la tierra en la que habitamos. Es el hombre que escoge ser feliz o desgraciado (Dt 30, 9 15).
Si hacemos lo que es bueno y justo a los ojos de Dios seremos felices, nosotros y nuestros hijos (Dt 12, 28). Entonces él nos bendecirá en todas tus cosechas y en todas tus obras, y seremos plenamente felices. Pongo hoy por testigos al cielo y a la tierra, te pongo delante vida o muerte, bendición o maldición. Escoge la vida, para que vivas, tú y tu descendencia (Dt 16, 15)
Cumplir el mandato de honrar a padre y madre, como lo ha mandado Dios hace que se prolonguen los días de nuestra vida y que esta sea feliz (Dt 5, 16). En resumen, si queremos ser felices hay que hacer lo que es justo y bueno a los ojos del Señor (Dt 6, 18).
Los salmos abundan en esta certeza, Dichosos todos los que temen al Señor, los que van por sus caminos. Comerán del trabajo de sus manos será dichoso y todo les irá bien (128)
Será dichoso el hombre que no sigue el consejo de los impíos, ni en la senda de los pecadores se detiene, ni en el banco de los burlones se sienta, mas se complace en la ley de El Señor, su ley susurra día y noche; todo lo que hace sale bien (1 -3).
A la mujer que le dijo, ¡Dichoso el seno que te llevó y los pechos que te criaron!, Jesús respondió, «Dichosos más bien los que oyen la Palabra de Dios y la guardan.»(Lc 11, 27) 3
Acota Santiago, El que considera atentamente la Ley perfecta de la libertad y se mantiene firme, no como oyente olvidadizo sino como cumplidor de ella, ése, practicándola, será feliz (Sant 1, 25).


Feliz quien confía en el Señor


María fue feliz porque creyó cumplidas las cosas que le fueron dichas de parte del Señor (Lc 1, 45). Lo salmos pueden sintetizarse en un dichoso el hombre que en el Señor pone su confianza (Salm 40, 5). Para el salmista los montes prorrumpen en gritos de alegría, pues El Señor ha consolado a su pueblo, y de sus pobres se ha compadecido.
Para el profeta nunca podemos decir que el Señor nos ha abandonado, el Señor nos ha olvidado. ¿Acaso olvida una mujer a su niño de pecho, sin compadecerse del hijo de sus entrañas? Pues aunque ésas llegasen a olvidar, yo no te olvido (Is 49, 13).


Feliz quien entra en el reino de Jesús


Jesús comparaba frecuentemente al Reino-Reinado de Dios con un banquete, con una fiesta. Uno de los escuchas exclamó, ¡Dichoso el que pueda comer en el Reino de Dios! (Lc 14, 15) En el Apocalipsis se llama dichosos a los invitados al banquete de bodas del Cordero. (Ap. 19, 9)
Cuando Dios se la creación de los cielos nuevos y tierra nueva, habrá gozo y regocijo por siempre jamás, sin que se oiga allí jamás lloro ni quejido (Is 65, 17-19). Cuando campee el Espíritu de Dios se implantarán en la tierra amor, alegría, paz, paciencia, afabilidad, bondad, fidelidad, mansedumbre, dominio de sí. En ese Reino no hay ley (Gal 5, 22).


Feliz el que Dios corrige


Es muy cierto que el Señor Dios nos pone a prueba para después hacernos felices (Dt 8, 11). Job exclama en medio de sus tribulaciones, ¡Oh sí, feliz el hombre a quien corrige Dios! ¡No desprecies, pues, la lección de Sadday! El mismo Señor que hiere es el que venda la herida, el que causa la llaga y luego la cura con su mano (Job 5, 17).
¡Feliz el hombre que soporta la prueba! Dice Santiago. (Sant 1, 12). La corrección es puramente pedagógica, por eso es dichoso el hombre a quien el Señor corriges por así los instruye (Salm 94, 12) 4


Feliz el que ayuda a los pobres


Feliz el hombre que se apiada y presta, y arregla rectamente sus asuntos (Salm 112, 3). ¡Dichoso el que cuida del débil y del pobre! El Señor le guarda, vida y dicha en la tierra le depara, le sostiene El Señor en su lecho de dolor (Salm 41, 2-4).
Estos son los consejos de los sabios,
Hijo, no prives al pobre del sustento, ni dejes en suspenso los ojos suplicantes. No entristezcas al que tiene hambre, no exasperes al hombre en su indigencia…
No apartes del mendigo tus ojos, ni des a nadie ocasión de maldecirte. Pues si maldice en la amargura de su alma, su Hacedor escuchará su imprecación (Sir 4, 1ss).
El único criterio de juicio del hijo del hombre será el cómo han tratado al más pequeños de los hermanos de Jesús, desnudos, hambrientos, enfermos, presos. A los renuentes el juicio es terrible, apártense de mí, malditos, al fuego eterno preparado para el Diablo y sus ángeles. (Mt 25, 41)


Los infelices


Los impíos, que han abandonado la ley del Altísimo nacieron para la maldición nacéis, cuando mueren heredan la maldición (Sir 41, 8ss). Ellos han merecido su propio mal… al malvado le irá mal, porque machacan a mi pueblo y moléis el rostro de los pobres (Is 3,9ss).
Isaías maldice a los que juntan casa con casa, y anexionan campo a campo, hasta convertirse en los únicos dueños de la tierra (5, 8). Malditos son los que llaman al mal bien, y al bien mal; que dan oscuridad por luz, y luz por oscuridad; que dan amargo por dulce, y dulce por amargo… los campeones en beber vino, los valientes para escanciar licor, los que absuelven al malo por soborno y quitan al justo su derecho (5, 20).
Triste el destino de los gobernantes que decretan decretos inicuos, que excluyen del juicio a los débiles y atropellan el derecho de los míseros de mi pueblo, haciendo de las viudas su botín, y despojando a los huérfanos (10, 1).
Maldito será el que edifica su casa sin justicia y al obrero nos le paga su trabajo (Jer 22,13). Maldito el que amontona lo que no es suyo, el que gana ganancia inmoral para su casa (Hab 2). El profeta exclama ¿hasta cuándo?
Jesús anuncia males para los ricos, los hartos, los que ahora ríen (Lc 6, 24). No tolera ni a los escribas y fariseos hipócritas, que cierran a los hombres el 5
Reino de Dios. (Mt 23, 13) ni a los legistas, que imponen a los hombres cargas intolerables, y que ellos mismos no tocan ni con uno de sus dedos. Legistas que no entraran al reino ni dejan entrar a los demás (Lc 11, 46)
Conclusión, los malos no tienen suerte, no conocerán la felicidad, a los justos todo les va bien, son felices.


Crisis cuando se caen las certezas


Pero la experiencia nos trae otras certezas
¿Hasta cuándo, Señor, me olvidarás? ¿Por siempre? ¿Hasta cuándo me ocultarás tu rostro? ¿Hasta cuándo tendré congojas en mi alma, en mi corazón angustia, día y noche? ¿Hasta cuándo triunfará sobre mí mi enemigo? ¡Mira, respóndeme, Señor, Dios mío! ¡Ilumina mis ojos, no me duerma en la muerte, no diga mi enemigo, «¡Le he podido!», no exulten mis adversarios al verme vacilar! Que yo en tu amor confío; en tu salvación mi corazón exulte (Salm 13, 2-6).
Por más que en los salmos siempre queda un resquicio para la certeza, ¡Al Señor cantaré por el bien que me ha hecho! ¡Salmodiaré al nombre de Señor, el Altísimo! Las angustias de la vida hacen que el creyente viva en medio de interrogantes.
¿Hasta cuándo te esconderás, Señor? ¿arderá tu furor por siempre como fuego? ¿Dónde están tus primeros amores, Señor, que juraste a David por tu lealtad?
Acuérdate, Señor, del ultraje de tus siervos, cómo recibo en mi seno todos los dardos de los pueblos; así ultrajan tus enemigos, Señor, así ultrajan las huellas de tu ungido. (Salm 89, 47-53)
El orante suplica al Dios de las venganzas que se haga presente, que de su merecido a los soberbios. ¿Hasta cuándo los impíos, Señor, hasta cuándo triunfarán los impíos? Cacarean, dicen insolencias, se pavonean todos los agentes de mal. A tu pueblo, Señor, aplastan, a tu heredad humillan. Matan al forastero y a la viuda, asesinan al huérfano. Los malvados piensas que el Señor no ve ni se da cuenta de sus maldades (Salm 94, 1-10).
Es trágico el grito de Habacuq
¿Hasta cuándo, Señor, pediré auxilio, sin que tú escuches, clamaré a ti, «¡Violencia!» sin que tú salves? ¿Por qué me haces ver la iniquidad, y tú miras la opresión? ¡Ante mí rapiña y violencia, querella hay y discordia se suscita! Por eso la ley se desvirtúa, y no aparece el juicio. ¡Sí, el impío asedia al justo, por eso aparece el juicio pervertido! (Hab 1-6) 6
Jeremías, desgraciado profeta de desgracias le pregunta al Señor por qué tienen suerte los malos, y son felices todos los felones? Suplica que los lleve como ovejas al matadero, y que los consagre para el día de la matanza (12, 1-4).
El profeta tiene una misión imposible, la de convencer al pueblo, eufórico ante una posible alianza militar, que el problema está dentro, no fuera. Y le cae muy mal a todos, a pesar de lo cual es mensajero fiel.
Se presentaban tus palabras, y yo las devoraba; era tu palabra para mí un gozo y alegría de corazón, porque se me llamaba por tu Nombre Señor, Dios Sebaot, pero el mensaje del Señor solo le causa un penar perpetuo, y una herida irremediable. Tanto que el profeta se pregunta Dios no será para él como un espejismo, aguas no verdaderas (Jer 15, 16ss) y llega a maldecir el día en que nació, ¡el día que me dio a luz mi madre no sea bendito! ¡Maldito aquel que felicitó a mi padre diciendo, «Te ha nacido un hijo varón», y le llenó de alegría! (Jer 20, 14ss)
Job se pregunta, ¿Para qué haber salido del seno, a ver pena y aflicción, y a consumirse en la vergüenza mis días? (Job 3, 1)
Así lo resume magistralmente el Sabio predicador,
Pues bien, un absurdo se da en la tierra, Hay justos a quienes les sucede cual corresponde a las obras de los malos, y malos a quienes sucede cual corresponde a las obras de los buenos. Digo que este es otro absurdo (Qoh 8, 14ss)


Feliz quien goza de la vida


Y yo por mí alabo la alegría, ya que otra cosa buena no existe para el hombre bajo el sol, si no es comer, beber y divertirse; y eso es lo que le acompaña en sus fatigas en los días de vida que Dios le hubiera dado bajo el sol (Qoh 8, 14ss)
La Palabra de Dios también es cierta cuando nos enseña que no hay mayor felicidad para el hombre que comer y beber, y disfrutar en medio de sus fatigas. Para el que cree también esto viene de la mano de Dios, pues quien come y quien bebe, lo tiene de Dios (2, 24).
Ante el absurdo de la existencia el sabio comprende que no hay para el hombre más felicidad que alegrarse y buscar el bienestar en su vida. Así que aconseja que todo hombre coma y beba y disfrute bien en medio de sus fatigas, eso es don de Dios (3, 12).
Anda, come con alegría tu pan y bebe de buen grado tu vino, que Dios está ya contento con tus obras. Cualquier cosa que esté a tu alcance el 7
hacerla, hazla según tus fuerzas, porque no existirá obra ni razones ni ciencia ni sabiduría en el seol a donde te encaminas (9,7ss).
No entregues tu alma a la tristeza, aconseja el sabio. Echa lejos de ti la tristeza; que la tristeza perdió a muchos, y no hay en ella utilidad. Envidia y malhumor los días acortan, las preocupaciones traen la vejez antes de tiempo. (Sir 30, 21ss).


Jesús-Señor en el monte


El Señor llamó a Moisés desde el monte y Moisés subió hacia Dios (Ex 19, 3). Jesús también sube el monte para encontrarse con el Padre Mt 14,23), pero en el nuevo monte no se excluye a ni a los impuros del pueblo, cojos, lisiados, ciegos, mudos y otros muchos que van al nuevo monte a recibir la alegría de la salud, los mudos hablaban, los lisiados quedaban curados, los cojos caminaban y los ciegos veían; y glorificaron al Dios de Israel. (Mt 15 29-31)
En el monte Jesús no ocupa el lugar de Moisés que conversa con Dios, Jesús se revela como el Señor que conversa con Moisés y Elías (Mt 17, 1-3).
En su primera experiencia de libertad los hijos de Israel acampan frente al monte, en el desierto de Sinaí. Sólo Moisés es llamado por Dios desde el monte y sube hacia Dios, que no desciende sobre el pueblo y se oculta de él. El pueblo tiene vedado el acceso al monte, so pena de muerte, todo aquel que toque el monte morirá.
La epifanía aterroriza al pueblo que se echa a temblar. Todo el monte Sinaí humeaba y retemblaba con violencia, porque El Señor había descendido sobre él.
En el monte el Señor dará a Moisés las tablas de piedra - la ley y los mandamientos - escritos para la instrucción del pueblo. Nadie puede subir, ni hombre, ni oveja ni buey. (Ex 24, 12-18; 34, 1)
Jesús, dador de la nueva ley sube al monte, se sienta como legislador, y hace que sus discípulos se le acerquen. Abre su boca y les enseña las nuevas instrucciones de la nueva ley. Jesús es dueño de "la Palabra" habla en primera persona, siente que ocupa el mismo lugar de El Señor
Los profetas siempre hablan en nombre de El Señor, así dice El Señor, oráculo de El Señor. etc. La expresión así dice El Señor aparece más de 400 veces en el AT. Jesús habla en nombre propio, yo les digo. Y dicta su nueva ley. En lugar de no matar…. no insultar… no solo no adulterar, ni siquiera desear en el corazón, prohíbe jurar, manda amar a los enemigos…. 8


Felices los pobres


Para entender la enseñanza de Jesús sobre que es la felicidad y quiénes son los felices, tenemos que situarnos en el contexto de los profetas.
Los salmos se resumen en esta certeza, Cuando el pobre grita, El Señor oye, y le salva de todas sus angustias (34,7; 34,10; 36,14; 39,18; 40,2; 67,11; 68,30; 68,33; 69,6; 71,2 etc, etc)
Los ancianos y los jefes del pueblo machacan a mi pueblo y muelen el rostro de los pobres (Is 3,14), Is 10,2 excluyen del juicio a los débiles, atropellan el derecho de los míseros de mi pueblo, hacen de las viudas su botín, y despojan a los huérfanos (Is 10,29). Es por eso que los débiles pacerán en mis pastos y los pobres en seguro se acostarán, mientras que hará morir de hambre la posteridad de los gobernantes y matará lo que de ti reste (Is 14,30; cf. Is 24,6; 25,3; 29,19; 41,17; 58,7; 61,1)
El crimen de Sodoma fue el no socorrer al pobre y al indigente (Ez 16,49), y este sigue siendo el crimen de Israel (18,12; 22,29). Amós es violento en su condena a los que venden al justo por dinero y al pobre por un par de sandalias (2,7). Los que pisotean al débil no habitarán las mansiones que han construido ni beberán el vino de sus viñedos (5,11).
Los sabios enseñan que no hay que privar al pobre del sustento, ni rechazar al suplicante atribulado, ni apartar el rostro del pobre (Sir 4,1; 4,4; cfr 4,8; 7,32; 10,22; 10,23; 10,30; 13,3, etc, etc)
En la biblia hebrea, ebyôn designa a quien tiene necesidad de ser socorrido. Responde a la categoría social de aquellos a quienes falta lo que es necesario para imponer respeto.
De aquellos que no tienen ni nobleza ni poder, ni instrucción. Consiguientemente son despreciados, explotados, abandonados a la injusticia de quienes poseen tales medios de dominación.
Una de las líneas maestras de los libros santos es que Dios está con ellos, precisamente porque tienen más necesidad de él que los demás. Dios les defiende, les ayuda.
Toda suerte de imágenes evocan esta relación privilegiada de aquellos para quienes Dios es más necesario que a los otros, porque están indefensos.
Toda la oración de los salmos podría resumirse en, un pobre clamó, Dios escuchó.
'anî 'anaw significa pobre, miserable, humilde y es uno de los términos más frecuentes para designar al pobre bíblico. Implica estar en una condición miserable, afligido, oprimido, manso, sumiso, en primer lugar delante de los 9
hombres, consiguientemente delante de Dios. Implica ante todo una actitud interior, un sentido eminentemente espiritual, religioso, el que se humilla ante el Señor.
dal evoca la idea de debilidad, el estar doblado por el peso de la vida, el no poder caminar derecho, con la cabeza erguida; es el delgado, el débil, el desnutrido.
La versión griega del Nuevo Testamento nos ofrece tres palabras claves, pénes es el que trabaja para vivir; ptôjós, el que tiene necesidad de alguien que lo ayude para vivir, de donde la idea de la mendicidad; tapeinós, el que está en estado de aflicción, encorvado bajo el peso de la vida.
En la Biblia Latina se llama pauper, el que produce poco; egens, indigens, aquel a quien le falta algo, el que está en necesidad; inops, el que está en un estado opuesto a la opes, opulencia, abundancia de recursos; mendicus, quien tiene deficiencias físicas, el enfermo, por consecuencia el pobre, el mendigo.
Además los pobres gozan de un rico vocabulario latino, infirmus, debilis, peregrinus, mitis, mansuetus, esuriens, miser….
ptôjós aparece 124 veces en los LXX, El Señor levanta del polvo al humilde, alza del muladar al indigente para hacerle sentar junto a los nobles, y darle en heredad trono de gloria, pues de El Señor los pilares de la tierra y sobre ellos ha sentado el universo (1Sm 2,8 1Sam 2,8; 2Sam 22,28).
El libro de Job pone en labios del Señor, yo libraba al pobre que clamaba, y al huérfano que no tenía valedor (29,12 Job 29,12), escucha el gemido del débil y oye el clamor de los humildes (34,28). El hace justicia a los pobres (36,6).
„ani en hebreo, práus en griego" apunta más a una actitud interior, el pobre es manso y humilde. Jesús pide que aprendamos de él que es manso y humilde de corazón (Mt 11, 29). El nuevo tipo de gobernante vendrá manso y montado en un asna y un pollino (Mt 21. 5 cfr. Zac 9,9) Moisés era un hombre muy humilde, más que hombre alguno sobre la haz de la tierra (Mt 21. 5).
Los anawim poseerán la tierra los humildes, y gozarán de inmensa paz (Salm 37,11), cuando Dios se levante para el juicio, para salvar a todos los humildes de la tierra (Salm 76,10). Él dejara en Israel un pueblo humilde y pobre, que se cobijará en el nombre de El Señor (Sof 3,12)
Tapeinós aparece70 veces en los LXX. Significa débil, pequeño, quien se haga pequeño como este niño, ése es el mayor en el Reino de los Cielos (Mt 18, 4). A los grandes lo hizo pequeños y a los pequeños grandes (Lc 1, 52). 10
El hermano pequeño será grande y el rico será empequeñeceráSant 1, 9) Dios da su gracia a los pequeñosSant 4, 6) El reino de Dios, la tierra prometida será de los pobres, de los mansos, los perseguidos. No entrarán en posesión de tierra por sus propios méritos, sino porque Dios cumple la palabra que juró a tus padres, Abraham, Isaac y Jacob (Dt 9,4). No es por la justicia de pobres y mansos por lo que El Señor Dios les dará en posesión esa tierra buena, porque también ello son un pueblo de dura cerviz (Dt 9,6). En la tierra de la promesa no debería haber ningún pobre, pero si lo hay nadie tiene derecho a endurecer el corazón ni a cerrar su mano a tu hermano pobre (Dt 15,4.7). Ha de buscar justicia, sólo justicia si quiere vivir y poseer la tierra que El Señor tu Dios le ha dado, (Dt 16,20).


Bienaventuranzas en Mateo


En su proclamación de las nuevas felicidades del nuevo Reino Jesús encuadra sus felicidades en la menorah, candelabro de los siete brazos (Mt 5, 3-12).
En la base del candelabro ponemos Bienaventurados los pobres de espíritu, porque de ellos es el Reino de los Cielos.
En la vela del medio ponemos la conclusión, que repite "reino de los cielos", Bienaventurados los perseguidos por causa de la justicia, porque de ellos es el Reino de los Cielos.
Después vamos colocando en cada una de las velas el resto de las bienaventuranzas, Bienaventurados los mansos, porque ellos poseerán en herencia la tierra, Bienaventurados los que lloran, porque ellos serán consolados; Bienaventurados los que tienen hambre y sed de la justicia, porque ellos serán saciados; Bienaventurados los misericordiosos, porque ellos alcanzarán misericordia; Bienaventurados los limpios de corazón, porque ellos verán a Dios; Bienaventurados los que trabajan por la paz, porque ellos serán llamados hijos de Dios. 11
No son felices porque son pobres de espíritu, perseguidos por causa de la justicia, mansos, hacedores de paz, llorones, limpios de corazón, hambrientos y sedientos de la justicia, misericordiosos. Son felices porque de ellos es el Reino de los Cielos, porque poseerán en herencia la tierra, serán llamados hijos de Dios, serán consolados, verán a Dios, serán saciados y alcanzarán misericordia
En la base y en el eje del candelabro la palabra clave, que funciona como inclusión, es la del Reino de Dios, o de los cielos como prefiere Marcos. Recordemos que los cielos es un circunloquio para no mencionar el nombre sagrado. El Reino les pertenece a los pobres y a los perseguidos. Quedan excluidos los ricos y los perseguidores.
Si vamos abinando los brazos del candelabro, como vemos en la imagen, los mansos son los que trabajan por la paz. Como hijos de Dios son herederos de la tierra.
Los que lloran por sus ojos reflejan lo que ven los que tienen limpio el corazón, serán consolados en la contemplación del rostro de Dios.
Los hambrientos y sedientos de justicia capaces de ser justos con la misericordia de Dios serán saciados experimentando su misericordia.
En Lucas tenemos que hablar del sermón del valle, porque Jesús –el que habla en nombre propio, el que dicta la Ley nueva- baja del monte y habla con el pueblo, al mismo nivel del pueblo.

Felices y infelices


Para Lucas son felices los que ahora son pobres, lloran y tienen hambre. Son infelices los que ahora son ricos, ríen y están hartos
La felicidad se encuentra cuando el discípulo es expulsado, injuriado, odiado, proscrito por causa del Hijo del hombre. Ese día el discípulo debe alegrarse y saltar de gozo, porque su recompensa será grande en el cielo. No se debe olvidar que de ese modo trataban a los profetas. Todo el mundo habla bien de los falsos profetas. 12


La felicidad verdadera y la falsa


Benedicto XVI, en su primer tomo sobre Jesús, dice que Francisco de Asís
entendió la promesa de esta bienaventuranza en su máxima radicalidad… Esta humildad extrema era para Francisco sobre todo libertad para servir y significaba un correctivo para la Iglesia de su tiempo, que con el sistema feudal había perdido la libertad y el dinamismo del impulso misionero… Francisco no tenía intención de fundar ninguna orden religiosa, sino simplemente reunir de nuevo al pueblo de Dios para escuchar la Palabra sin que los comentarios eruditos quitaran rigor a la llamada.
Situándose fuera del sistema burgués de su tiempo, lo que el mismo califica como salir del mundo, Francisco de Asís se encuentra con los pobres y marginados que están fuera del sistema, creando una alternativa de una sociedad nueva y una Iglesia evangélica. Y descubriendo así el camino de la verdadera alegría, su misterio: no está allí donde parece que estuviera, las apariencias y falsedades del sistema, sino más allá o fuera de él.
En sus Alabanzas al Dios altísimo Francisco de Asís llama Dios el amor, la caridad, la sabiduría, la humildad, la paciencia, la hermosura, mansedumbre; la seguridad, la quietud, el gozo, la esperanza y alegría, la justicia, la templanza. El Altísimo es la única riqueza capaz de saciar al ser humano. El grande y admirable Señor, omnipotente Dios, misericordioso salvador es toda nuestra dulzura, tú eres nuestra vida eterna.
Sería interesante emprender una relectura crítica del proceso de conversión de san Francisco, la cual es contada dentro del clásico esquema del "salir del mundo". Francisco comienza a comportarse como un enamorado y promete desposarse con la mujer más noble y bella jamás conocida... destacada entre todas por su sabiduría. Celano comenta candorosamente que esta mujer es la inmaculada esposa de Dios, la Iglesia, a la cual la llama Dama pobreza. La Esposa de Dios se ha distanciado de la iglesia-sociedad para convertirse en la compañera de Francisco y de los suyos. En el plan narrativo de Celano la Orden aparece pensada y fundada como una propuesta alternativa de la Iglesia-Sociedad.
Tomemos el relato de la Leyenda Mayor de San Buenaventura. Durante el proceso de conversión Francisco se dirige a Roma, "al sepulcro del apóstol Pedro". Sufre un impacto tremendo. Ve una iglesia romana que engendra pobres y que los vomita a sus mismas puertas: los pobres no están dentro de la Iglesia. Francisco sale de la iglesia y se mimetiza con los desposeídos, los que están fuera del sistema-iglesia, pero dentro del sistema-Dios. 13
En este relato encontramos claramente algunas de las propuestas originarias del movimiento primitivo. Si queremos cambiar la sociedad-iglesia, basada en el dinero, en la apariencia, en el poder, no tenemos más remedio que abandonar sus estructuras y vivirla desde abajo, con y como los pobres que están fuera, a sus mismas puertas. Hay que comenzar por ver la iglesia-sociedad con los ojos de los vomitados (LM. 1-6 y paralelos). Francisco se suma al intento de los movimientos pauperísticos medievales que sueñan con construir otra sociedad, otra iglesia, otra política, capaces de ser alternativas reales para sus contemporáneos.
En el dictado de la verdadera alegría Francisco no ve la felicidad que promete Jesús en el evangelio en la conversión de los grandes de la tierra, tanto políticos como militares. Como se es feliz porque los grandes intelectuales se hagan frailes ni que los hermanos hayan convertido a todos los infieles, no que el mismo Francisco elimine la enfermedad de la tierra.
Francisco rehace el viaje de su vida, desde Perusa, donde todo comenzó con su derrota y su prisión, hasta Santa María de los Ángeles donde ve su proyecto realizado. En el presente no hay muchos motivos de gozo: noche avanzada, tiempo de invierno, todo está embarrado y el frío es tan grande, que en los bordes de la túnica se forman carámbanos de agua fría congelada, que hacen heridas en las piernas hasta brotar sangre de las mismas.
Embarrado, helado y aterido, llega a Santa María convertida en un monasterio: hay puerta, horarios de entrada y porteros. El diálogo entre el fundador del movimiento y el portero es sin desperdicio:
Dice el portero -¿Quién es?
Yo respondo: -El hermano Francisco.
Y él dice: -Largo de aquí. No es hora decente para andar de camino. Aquí no entras.
Y, al insistir yo de nuevo, contesta:
-Largo de aquí. Tú eres un simple y un paleto. Ya no vas a venir con nosotros. Nosotros somos tantos y tales, que no te necesitamos.
Y yo vuelvo a la puerta y digo:
-Por amor de Dios, acogedme por esta noche.
Y él responde: -No me da la gana.
Vete al lugar de los crucíferos y pide allí. 14
Te digo: si he tenido paciencia y no he perdido la calma en esto está la verdadera alegría, y también la verdadera virtud y el bien del alma.
El portero-guardián del sistema no reconoce a Francisco como a uno de los de dentro. Francisco se colocó voluntariamente fuera. No es decente andar infringiendo reglas, las que fuere. El sistema es estable y tiene sus normas. Francisco es vagabundo y no tiene ni siquiera horarios.
En segundo término aparece el peligro de la herejía. Entre los pobres, vagabundos, ignorantes, simples, rústicos, idiotas, están los herejes. Y tanto los herejes como aquellos que se les parecen demasiado no tienen cabida ni en la sociedad, ni en la iglesia... ni en la Orden que se integró al sistema. El portero resume todas las prevenciones del sistema ante las nuevas propuestas de los movimientos pauperísticos.
Pongamos el relato en un cuadrado semiótico:
es alegría ALEGRIA VERDADERA parece alegría TRISTEZA VERDADERA permanecer calmos cuando somos rechazados por el sistema dominante y sin emplear la política del sistema para forzar las puertas del sistema; la verdadera alegría es estar, situarse más allá de "este" sistema de "esta" política estar integrados al sistema, en cualquiera de sus coordenadas: políticas (rey de...) religiosas (prelados...) culturales (maestros...) éticas (conversión...) o bien luchar empleando los medios intrasistémicos para lograr la integración al sistema o su reforma ser expulsados del sistema dominante o abandonar libremente el sistema y su política ser bien recibidos por el sistema o perder la calma, luchar para integrarse FALSA TRISTEZA no parece alegría FALSA ALEGRIA no es alegría
El texto es casi una cita-sumario de toda la argumentación de los integrados al sistema. Tendríamos que remitirnos a san Bernardo y otros documentos de la época. El portero dice a Francisco que ellos no quieren ni ser ni parecer 15
herejes-subversivos. Después de las incertidumbres y errores de los primeros tiempos, nuestra Orden está en orden.
En la tercera respuesta aparece el rechazo total. Es casi como un remitir a los orígenes. El portero-guardián define a Francisco como leproso y lo manda al leprosorio de los crucíferos. Allí, probablemente, los estigmatizados de la sociedad recibirán gustosamente al estigmatizado por Dios.
El archicitado texto de Celano, "comencemos hermanos, que hasta el presente poco o nada hemos hecho" es leído siempre fuera del contexto que llama la atención sobre hermanos que buscan prelacías, sobre Francisco que se nota integrado al sistema y que añora volver a servir a los leprosos para ser nuevamente despreciado como ellos (1 Cel. 103). Según Celano, Francisco constata que hasta el momento poco o nada alternativo han resultado ser en la sociedad. Los hermanos y la Orden están totalmente integrados al sistema dominante y que hay que comenzar de nuevo. Tal es el sentido de la tercera respuesta del portero de la verdadera alegría.
La perfecta alegría consiste en no perder la calma. Dado que el objetivo no es ni estar dentro, ni usar de las políticas intrasistémicas para forzar la puerta del ingreso. Francisco podrá perder la calma e intentar el uso de la fuerza o de la autoridad. En ese instante hubiera claudicado frente al sistema. Hubiera sido reabsorbido y hasta podría haber experimentado una alegría falsa por la victoria obtenida.
Termino este paseo con un texto de la Regla franciscana:
Dondequiera que estén o en cualquier lugar en que se encuentren unos con otros, los hermanos deben tratarse espiritual y amorosamente y honrarse mutuamente sin murmuración. Y guárdense de mostrarse tristes exteriormente o hipócritamente ceñudos; muéstrense, más bien, gozosos en el Señor y alegres y debidamente agradables

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

IMAGENS DE DEUS NA BÍBLIA



Frei Bruno Glaab


Introdução



Fazer uma incursão pela Bíblia para conhecer a Deus deveria, por si só, ser um caminho seguro. Ao menos se o leitor tiver uma visão fundamentalista. Entendendo a Bíblia como "ditado de Deus", então nos deparamos com uma imagem, às vezes, vingativa, ciumenta, racista e até assassina. Mas o tempo em que se lia a Bíblia como diatado de Deus já ficou para trás, ao menos para quem não é fundamentalista. No estudo, a seguir, veremos algumas possibilidades de conhecer a imagem de Deus na Bíblia. Partiremos do Antigo Testamento, principalmente de escitos do Pentateuco. Veremos as mais diferentes imagens para depois chegarmos ao Novo Testamento e conhecer o Deus de Jesus Cristo.


O Deus do Pentateuco


Na Bíblia encontramos as mais diversas imagens de Deus. Desde o Deus Criador, o Deus vingativo, o Terrível, o Justiceiro, o Justo até o Deus de Amor ilustrado por Jesus Cristo. Se apenas nos baseássemos no Atnigo Testamento teríamos uma imagem distorcida de Deus.

Vejamos, no Êx 20,2ss encontramos um Deus vingativo. Ele, falando para Moisés, se declara um Deus ciumento que castiga os pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos. No Sinai o povo não podia chegar perto de Deus, caso contrário deveria morrer (Ex 19,12). Este mesmo Deus ordena a Moisés, que os idólatras devem ser apedrejados (Dt 13, 7-12). se um casal for pego em adultério, deve morrer apedrejado (Dt 22,22). Ex 35,2-3 manda matar quem trabalhar no sá-bado. O mesmo texto proíbe acender fogo em nossas casas no sábado.


Se esta imagem de Deus nos estranha, ainda não é tudo. Este mesmo Deus deu ordens a Moisés que não se enquadram em nossos critérios, hoje. Poderia um pai vender sua filha? Segundo Ex 21,7-11, poderia. E, quem deu esta ordem a Moisés? O próprio Javé. Este mesmo Javé permitiu que se comprasse escravos entre os estrangeiros (Lv 25,44-46). Em Lv 15,19-24 se proíbe tocar em mulher menstruada, ou mesmo nos móveis que ela usou. É possível perguntar a todas as mulheres, nas lojas, no trabalho, nas ruas, nas igrejas, se elas estão menstruadas?
Em Lv 21,16-24 se proíbe aqualquer deficiente físico se aproximar do altar. Isto é correto? Em Lv 19,27 se proíbe cortar o cabelo e a barba. Em Lv 11,29ss se diz que se alguém tocar em um animal morto, ficará impuro. Pode-se ainda jogar futebol, pois a bola é feita de couro? Pode-se usar sapatos, pois são feitos de couro? Ao menos quem usar couro de jacaré.


Um mandamento estranho encontramos em Lv 19,19: "Não permitirás que os teus animais se ajuntem com os de espécie diversa [boi, cavalo, cão, etc];no teu campo, não semearás semente de duas espécies [milho, feijão, mandioca, etc.]; nem usarás roupa de dois estofos misturados [seda, lã, linho, etc.]". Idéias como estas e até mais extravagantes, podem ser encontradas, principalmente no Antigo Testamento.


Que Deus é este?


Ao leitor desavisado pode parecer que Deus falou diretamente a Moisés. Portanto, dizem os fundamentalistas, "quem somos nós para discutir as ordens de Deus?" No entanto, nem sempre Deus foi entendido assim. Já no Antigo Testamento temos imagens bem diferentes. Em Gn 1 Deus é o criador e nos versículos 26ss deste mesmo capítulo Ele cria o ser humano à sua imagem e semlehança. Em Is 49,15 se compara o amor de Deus ao amor da Mãe que nunca pode esquecer o filho que gerou, mas, mesmo que uma mãe o fizesse, Deus nunca se esqueceria de seus filhos e filhas. Já percebemos que a imagem de Deus começa a mudar. Nem sempre Deus é apresentado como carrasco, com mandante de apedrejamento e de outras maldades. Mesmo no Antigo Testamento, Deus é apresentado com ternura.


A verdadeira imagem de Deus


A verdadeira imagem de Deus nós é apresentada na pessoa de Jesus. Quando as autoridades ensinam que nem se deve pronunciar o nome de Javé, Jesus chama este mesmo Deus de Meu Pai e de Pai Nosso (Mt 6,7ss). Chama este Deus, visto como o terrível, de Abba (Mc 14,36). Abba era a forma familiar, ou seja, como as crianças se dirigiam ao pai, talvez como o nosso papai. As autoridades judaicas se enfureciam, vendo a intimidade com que Jesus tratava a Deus: "As autoridades dos judeus tinham mais vontade de matar Jesus, porque, além de violar a lei do sábado, chegava até a dizer que Deus era o seu Pai, fazendo-se assim igual a Deus" (Jo 5,18).

Mas, em toda a prática de Jesus, encontramos um verdadeiro retrato falado do Pai, tal qual Jesus o entendia, specialmente na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). Nela o Pai nos é revelado como aquele que respeita a decisão do filho, até quando este se afasta dele. Quando o filho desviado volta, o pai já não quer saber de vingança, nem de cobrança, ou mesmo de punição, mas unicamente de festa.

Junto à imagem do Pai do filho pródigo, poderemos colocar o Pai invocado por Jesus na hora da cruz (Lc 23,34): Perdoai-lhes, pois não sabem o que estão fazendo. Só quem tem uma tão magna compreensão do Pai pode rezar assim, ou seja, ninguém mais do que Jesus poderia ter esta intimidade com o Pai.


Como entender esta evolução?


Como entender esta mudança de compreensão? Para os fundamentalistas isto fica complicado. Não, porém, para quem estuda a Bíblia com seriedade científica. Diríamos, no Antigo Testamento Deus não fazia ditado para Moisés ou para outros personagens bíblicos. O que encontramos no Pentateuco são condicionamentos históricos e culturais daquela época. Deus se revela a um povo que tem aquela compreensão e deus respeita a cosmovisão do povo de então. Trata-se do mesmo Deus do Pai de Jesus, mas neste tempo ele era muito pouco conhecido. As pessoas do tempo de Moisés só foram capazes de captar Deus assim.


Para compreender esta mudança radical na imagem de Deus desde o Antigo Testamento até o Novo precisamos usar uma imagem, ou uma metáfora. Queremos expressar isto por uma escada:





Imaginemos que o primeiro degrau seja a revelação que Deus fez a Abraão, o segundo degrau seja a revelação feita a Moisés, O terceiro, o quarto, o quinto degraus sejam os profetas e outros personagens do Antigo Testamento. Agora imaginemos que o último degrau seja Jesus Cristo. Então poderemos ter uma imagem correta da Revelação de Deus. Os degraus da escada vão nos elevando. Quanto mais avançamos, mais enxergamos. O degrau que nos introduz na casa do Pai é Jesus, por isto ele é chamado de a plenitude da Revelação. Em outras palavras, em Abraão temos uma imagem pálida de Deus (1º degrau). Já em Moisés (segundo degrau) temos uma imagem melhor, mas ainda insuficiente. Nos profetas já estamos alguns degraus a mais e a visão fica mais clara, mas a imagem verdadeira só teremos em Jesus. Este nos revela o Pai, tal qual o devemos entender. Nunca, no entanto, teríamos chegado a Jesus sem passar por Abraão, Moisés, profetas, etc.


Logo, o Deus vingativo, o tremendo, o punitivo, é o mesmo Deus de Jesus Cristo, mas visto de forma incompleta. Para entender a Deus, não temos caminho mais claro do que Jesus. Ele nos revelou o Pai no melhor sentido possível. Por isto se diz: quem quer conhecer o Pai, passa por Jesus. O que Jesus não revelou, não precisamos saber a respeito do Pai. Com isto não queremos dizer que o Pai não nos fala, ainda hoje, mas as chaves para entender o Pai, nos vêm de Jesus.


Conclusão


Deus é sempre o mesmo, desde Abraão até Jesus, e mesmo, até hoje. No entanto, a compre-ensão que dele temos, muda. Abraão teve uma imágem pálida de Deus. Moisés e os profetas tiveram uma imagem diferente, mas a verdadeira imagem de Deus se torna evidente apenas na pessoa de Jesus.




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

VERGONHA, OU CASO DE POLÍCIA

Bruno Glaab
No início deste inverno dirigi-me a uma conhecida loja de roupas da cidade. Precisava comprar uma jaqueta. Era o que no momento eu precisava e o que cabia dentro do meu orçamento do mês. Ao escolher a peça de roupa, o balconista quase que me satura a paciência, tentando me convencer a comprar duas ou três jaquetas, mais algumas camisas, meias, pijamas, etc. Mostrei-me firme, dizendo que neste momento só queria uma jaqueta. Mas o balconista insistiu tanto em vender coisas que eu não precisava e nem sequer tinha condições de adquirir naquele momento, que cheguei a ficar desgostoso com a atitude dele. Quando, enfim, estava no caixa esperando a minha vez de pagar e retirar a jaqueta, ele me aparece novamente com algumas peças de roupas, dizendo: “ao menos pegue estas peças de lã na mão para sentir sua alta qualidade. Eu lhe faço um preço especial e a crédito”. Senti o sangue ferver e disse a ele que estava me sentindo molestado pela sua insistência em vender o que eu não precisava e nem tinha condições de comprar. Tive que ser um tanto mal educado para me ver livre de sua petulância.
Fiquei pensando, como estas lojas cometem abusos. Quantas pessoas se deixam levar pela insistência de balconistas e acabam se endividando e comprando o que nem sequer precisam. Depois ficam meses e anos pagando contas que só trazem preocupação e amargura. Repeti, para mim mesmo o bordão do Boris Casoy: “Isto é uma vergonha”.
Passaram-se alguns dias e eu precisava comprar um remédio para pressão alta. Com a receita na mão entrei em uma destas farmácias, supostamente populares e econômicas. Qual não foi minha surpresa ao perceber no balconista da farmácia a mesma preocupação daquele outro balconista da loja de roupas. Logo quis me vender uma porção de remédios que eu não havia pedido, nem sabia para que comprar. Disse a ele que só compraria aquele da receita. Ele insistiu: “mas eu tenho outro remédio, mais barato e melhor do que aquele de sua receita”. Diante de minha firmeza em não comprar nada além do preescrito, foi e me trouxe diversas caixas, dizendo: “se você comprar 4 caixas, lhe darei uma de presente”. Aí me trouxe uma porção de outros remédios para depurar o sangue, tônico, digestivo, para a memória, para dores, etc. Foi difícil sair sem comprar suas mercadorias.
Se as lojas de roupas cometem abusos contra o povo e a economia popular, as tais farmácias não apenas atentam contra a economia, mas contra a saúde pública. Se nas lojas de roupas nos endividamos comprando coisas desnecessárias, nas ditas farmácias, além de nos endividar, nos envenenamos, ou ao menos nos entupimos de remédios sem receita médica, o que pode ter amargas conseqüências para a nossa saúde. Se nas lojas de roupa acontece uma vergonha, nas farmácia acontece caso de polícia. Não está na hora de as autoridades sanitárias darem um basta nesta brincadeira das farmácias? Com saúde não se brinca.

ENTREVISTA DE QUEIRUGA

15/11/2011


‘Os ultracatólicos estão espalhando gravíssimas calúnias’, afirma Queiruga

O bispo de Bilbao, Mario Iceta, acaba de proibir que Andrés Torres Queiruga dê aulas no Instituto Teológico da diocese basca. Depois do avassalador sucesso do 26º Fórum Encrucillada, o teólogo galego deixa a direção da revista homônima editada pelo Fórum e garante que seu colega, José Antonio Pagola, é “um profeta”. Por outro lado, doem-lhe as “calúnias” dos ultracatólicos e o fato de que o arcebispo de Santiago, Julián Barrio, não utilize a mesma medida para com “atitudes escandalosamente reacionárias” e com “uma pastoral teimosamente pré-conciliar em muitas paróquias”.A entrevista é de José Manuel Vidal e está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 13-11-2011. A tradução é do Cepat.Eis a entrevista.


O sucesso de público e de expositores do 26º Fórum de Encrucillada demonstra que há sede de “explicadores” da fé sérios e livres?


Isso é evidente. A mudança cultural foi grande, e muitas explicações que se dão hoje são pratos requentados intragáveis para um paladar normal. Temos um autêntico tesouro, algo que o mais autêntico e profundo do ser humano deseja; mas aquilo que muitas vezes chega ao público, mais que refleti-lo o encobre. Por isso, quando se consegue uma apresentação ao mesmo tempo autenticamente evangélica e verdadeiramente atual as pessoas vibram e renascem o desejo e a esperança. Isso aconteceu, mais uma vez, no Fórum da Encruzilhada.


A que atribui o fato de que os setores mais ultracatólicos, em vez de se alegrarem com o êxito desta convocação, convoquem à fogueira?


Acima de tudo, ao desconhecimento. E não sei até que ponto se dão conta das gravíssimas calúnias que estão divulgando, algo certamente que na moral mais tradicional, que dizem defender, é pecado mortal. Em seguida, há uma atitude que cobre com um dogmatismo agressivo a ignorância da verdadeira interpretação da fé e de seu legítimo pluralismo; nunca distingue entre fé e teologia, entre o fundamental e o acessório. Repetem frases sem ter dedicado um mínimo de tempo para saber o que na realidade significam e opinam sobre opiniões de autores e livros que nunca leram. O que mais me custa a entender é que em nome do Deus amor se possa destilar tanto ódio; e que em nome de um Jesus enormemente renovador e mesmo “revolucionário” em sua interpretação da fé tradicional que ele havia recebido, se procure impor uma religião reacionária, que mata a voz viva do Evangelho. No fundo, reproduzem hoje os mesmos procedimentos e calúnias com que há 2.000 anos outros amargaram a vida de Jesus de Nazaré... até assassiná-lo.


Estas brigas de ‘galinheiro eclesial’ nos fazem perder energias e nos desviam do essencial?


Triste, mas evidente.


O Fórum se sente desautorizado pela recente e asséptica nota do arcebispo de Santiago?


Absolutamente não, porque tem o cuidado de não entrar nos conteúdos. Diz apenas que usamos o nosso dever e nosso direito de cristãos para buscar uma interpretação atualizada da fé. A única coisa que estranho é que, ao contrário, a arquidiocese nunca diga algo semelhante em relação a atitudes escandalosamente reacionárias, que não denuncie abusos muito graves na liturgia funerária ou que consinta com uma pastoral teimosamente pré-conciliar em muitas paróquias... e outros assuntos que algum dia deverão ser analisados detalhadamente, como aquele que convida todos os sacerdotes a irem a Valladolid para escutar o Kiko Argüello.


Você abandona a direção da revista Encrucillada, após 30 anos. Por quê?


Não abandonei a Encrucillada, com a qual continuo umbilicalmente unido e colaborando em seu conselho de redação. Foi uma mudança amplamente desejada, para que uma nova geração tome o testemunho. Minha maior alegria é que a transição se fez em plena saúde da revista e, além disso, com a expressa decisão e muito consciente de respeitar a independência total da nova equipe, que certamente está exercendo sua função de maneira magnífica.


Pedro Fernández Castelao garante a continuidade da revista e do projeto que aglutina a Encrucillada?


O Pedro une à sua excelente preparação teológica um caráter sereno, uma atitude sempre equilibrada e um profundo compromisso eclesial. É leigo, mas escolheu a teologia como única carreira de estudo. Infelizmente, não pode ensinar na Galícia porque, incompreensivelmente, os bispos galegos optaram por não ter uma faculdade teológica. Mas, por sorte, é professor na Pontifícia Universidade de Comillas.


Você acredita que José Antonio Pagola, com o qual esteve no Fórum, é um herege?


Um profeta. Os participantes do Fórum captaram e expressaram isso calorosamente. O Fórum, tão caluniado, foi um verdadeiro acontecimento de graça. Uma experiência ao vivo do que pode ser uma nova espiritualidade. Inesquecível. Mas quero assinalar que também se deve aos outros dois expositores.


Alguns consideram que os macro-eventos pastorais, como a JMJ, são um “sinal dos tempos”?


Sinal, sim. Fica a pergunta: de que tempos? Não a acompanhei de perto, mas tenho a impressão de que o sinal mais duradouro aconteceu nos sinais mais discretos de pequenos grupos, cuidadosamente preparados. Mas não mereceram a atenção da mídia, sem dúvida fascinada pelo macro.


Falando do Vaticano II, está sendo desativado?


A explosão de graça, vitalidade e esperança do Vaticano II é impossível que possa ser desativada. Era chuva profética que uma igreja e, inclusive, um mundo sedentos estavam esperando. E Isaías já disse que a chuva de Deus nunca retorna estéril ao céu. Sim, é preciso reconhecer que leva tempo, em rigor desde o começo, submetido à pressão de freios muito fortes. Seguirá em frente.


Uma vez anunciado o fim do ETA, o que acredita os terroristas que deveriam fazer?


Deixar as armas. Tornar-se cidadãos comuns e tratar de encontrar a melhor maneira possível de resolver suas pendências jurídicas, para se integrarem no jogo democrático.


Fonte: IHU 15/11/2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MOSTRA-NOS O PAI! A QUE JESUS BUSCAMOS?

Pe. Mário Fernando Glaab

Não há dúvida de que buscamos seguir a Jesus para possuir Deus conosco. Todo esforço que fazemos para ser cristãos de fato, seguir a Jesus como nosso Mestre, é sincero. Mas isso não quer dizer que o buscamos sempre e automaticamente como ele se mostrou e pode ser encontrado. É tarefa para a teologia, às vezes urgente, esclarecer as questões, de maneira que possa ajudar a todos, no sentido de fazê-los refletir e dar-lhes condições para livremente se decidirem pelo caminho mais seguro. Portanto, ao colocar a questão que Jesus buscamos? não pretendemos questionar a boa vontade dos fiéis, mas levá-los a aprofundar a questão, para que assim, tenham mais condições de segui-lo e se comprometerem com ele e, especialmente, com o seu projeto de vida.

Jesus imaginado a partir da experiência de cada um


Toda experiência que fazemos se conserva em nossa memória pela imaginação. É impossível guardar o que experimentamos na pureza do acontecimento. Pelo fato de sermos indivíduos concretos, isto é, históricos, somos limitados pelo tempo e pelo espaço. Vivemos hoje e neste determinado lugar; e a experiência que fazemos leva as marcas dessas limitações.


Sem dúvida, os discípulos que nos transmitiram suas experiências com Jesus de Nazaré nos queriam comunicar que nele se encontraram com Deus. Experimentaram de forma única que Deus estava com aquele homem e que se “mostrava” a eles por meio dele. Os evangelistas e os demais escritores do Novo Testamento o fizeram, cada um do seu modo, apresentando o Homem de Nazaré do jeito como puderam experimentar nele o próprio Deus. Para tal, todavia, se valeram das concepções de seu tempo e de seu espaço. Isso, não resta dúvida, limitou bastante o que de fato queriam transmitir. Usaram, conforme podiam, os instrumentos que estavam ao seu dispor ao imaginarem como podiam compartilhar o que sentiram, viram, enfim, experimentaram. Certamente iremos encontrar os mais diversos acentos da figura concreta de Jesus, conforme o que mais impressionou ao escritor; para uns é Jesus amigo dos pobres, para outros, Jesus pregador da boa notícia, para outros ainda, aquele que acalma os mares etc. Entra, a essa altura, o trabalho imaginário de cada um. Aliás, o próprio Jesus mostra isso claramente quando se encanta diante da natureza e vê nela a bondade do Pai que cuida das flores, dos passarinhos (cf. Mt 6, 26-28), enfim, de tudo o que acontece no dia a dia. Também Jesus usa da imaginação, que não foi muito conforme a mentalidade religiosa da época. Enquanto o povo judeu cultivava uma imagem do Deus todo-poderoso, mas sempre pronto a punir os transgressores da Lei, Jesus com parábolas suprimiu essa idéia negativa.[1] O retrato imaginativo que ele passa do Pai é o de alguém que se preocupa com o bem de cada um, assim como com a harmonia da natureza. Isso não quer dizer que, conforme outros escritores, Jesus também não use outra imaginação, basta lembrar quando fala com autoridade, dizendo, por exemplo: “Eu sou...” (Jo 8,12; 9,5; 11,25; 14,6 etc.). Nesse caso, seu imaginativo de falar em nome do Pai, perpassa os relatos das palavras e das ações que realiza, tornando-os “sinais”.

As cristologias


Falando da imaginação que iluminava os discípulos de Jesus ao relatarem a sua experiência com ele, já se pode falar das diversas cristologias do Novo Testamento. Mas, essa conotação cristologia se fixa, de modo definitivo, quando se busca entender como as comunidades cristãs posteriores criam e anunciavam o Evangelho. Fato notável ocorre quando o cristianismo penetra na cultura greco-romana. Para que a fé da presença de Deus em Jesus, ou de que em Jesus o Filho de Deus está encarnado, fosse importante também para os de cultura grega e de cultura romana, toda linguagem necessitava de nova compreensão, isto é, da compreensão imaginativa que fosse válida para os novos interlocutores. Assim, várias cristologias surgiram. Muitas discussões sobre as novas compreensões. Não faltaram condenações, uma vez que os erros pululavam por toda a parte. Mas, aos poucos se fixaram as regras que para o momento eram o mais conveniente. Isso aconteceu nos concílios cristológicos, de Nicéia (325) e de Calcedônia (451), para falar somente dos mais importantes. O ensinamento desses concílios[2] é conhecido como doutrina clássica e comunica a visão de Jesus como Deus, em primeiro lugar. Uma vez apresentado assim, toda a leitura de suas palavras e de seus feitos vão por esse caminho: Jesus conhecia tudo por ser Deus, Jesus ensinava por seu Deus, Jesus fazia milagres por seu Deus, Jesus ressuscitou por ser Deus. Jesus como Homem não se impôs com a mesma intensidade.[3]


Cada cristologia tem sua prática correspondente. Se a compreensão imaginativa de determinada cristologia é que Jesus é Deus, consequentemente segue uma prática que lhe corresponde; assim como sendo de que Jesus é aquele que leva ao Pai, também a prática que segue essa visão lhe corresponde. Muitos séculos se passaram desde as primeiras compreensões e primeiros testemunhos. Muitas tentativas de atualização se sucederam. Entre tantas, algumas tiveram muitos sucessos, outros menos. Também aqui e agora, isto é, hoje e em nossa sociedade brasileira, existem diversas maneiras de se aproximar do mistério de Jesus Cristo. São duas, no entanto, as cristologias que mais se destacam que, conforme sua compreensão imaginativa, influenciam bastante sobre a experiência concreta dos fiéis e das igrejas. São elas: a que parte de Jesus-Deus e a que parte de Jesus que leva a Deus ou de Deus-em-Jesus.

Jesus-Deus


Essa é a mais tradicional e que responde à concepção do que foi ensinado por muitos anos. Quando no Concílio de Nicéia se afirmou que em Jesus está a natureza de Deus mesmo, isto é, que o Filho de Deus encarnado é da mesmíssima natureza de Deus, não se quis diminuir a natureza humana de Jesus. Contudo, para evitar que isso acontecesse, foi preciso que outro Concílio, o de Calcedônia, declarasse que Jesus é também humano como nós (consubstancial ao Pai e consubstancial a nós). Sem dúvida, grande conquista. Contudo, mesmo que se insistisse na única pessoa de Jesus Cristo, esta visão deu oportunidade para se fazer uma ruptura entre Deus e Homem na única pessoa. Conforme a ação, dizia-se que era de Deus; ou então, que era do Homem. Foi se impondo, aos poucos, que “o retrato de Jesus legado pelo Concílio (de Calcedônia) foi que Jesus era um indivíduo divino que também portava uma natureza humana integral”.[4]

O compromisso que segue essa visão de Jesus-Deus não pode ser outra que de se aproximar dele para “possuí-lo”. Ele é o que tem poder. Quem o possui pode esperar tudo dele. Ele vai ter que caminhar conosco, defendendo contra todos os males que existem pelo mundo afora. Ele deve perdoar, assim como deve mandar constantemente o seu Espírito para que tudo seja iluminado e que assim não se desvie do caminho certo. As orações que lhe são dirigidas são quase sempre petições. Jesus-Deus deve fazer isso e aquilo; deve proteger, deve converter os pecadores, deve, deve, deve! Igualmente, tal imaginação dá segurança para os fiéis observadores das leis. Aquele que fez tudo; cumpriu os mandamentos, pode estar certo de que Jesus o protege. Chega-se ao cúmulo de pensar que depois de participar da missa dominical o resto do dia está garantido.

Deus-em-Jesus


Bem outra é a visão de Deus-em-Jesus. Sua redescoberta é mérito, em grande parte, da Teologia da Libertação. Volta-se o interesse principal para o Jesus histórico, Jesus de Nazaré, como comumente é chamado. Não se nega em nada a verdade do verdadeiro Deus e do verdadeiro Homem, mas muda-se o jeito do encontro com ele. Se no primeiro caso se vai a Jesus-Deus para “possuí-lo”, agora se vai a ele que vem, para “estar com”.


Outra maneira de entender é seguir a experiência dos apóstolos e dos demais que se encontraram com Jesus em situações bem concretas de tempo e de espaço. Eles viram um homem que os levou a algo que o transcendia, mostrou-lhes que Deus não é um Deus distante, mas um Deus próximo. Deus que é Pai. Pois, “em Jesus, a vivência do Pai constitui o núcleo mais íntimo e original de sua personalidade. Dela emana para ele uma confiança sem limites que até hoje torna inconfundível a sua figura”.[5] Ele os convidava a “experimentá-lo”, e, para segui-lo. Estabelecendo-se assim a relação mestre-discípulo. Tudo o que Jesus dizia e o que fazia levava-os à experiência do Pai que está presente com seu amor incondicional. Seguir ao Deus-em-Jesus não garante segurança, mas, muito pelo contrário, oferece risco. Contudo, a confiança na presença do Pai leva a se comprometer com o mesmo projeto de Jesus, dispondo-se a seguir seus passos e entregar a vida pela mesma causa. Deus, sem dúvida, está em Jesus, mas, ao invés de pedir, muito mais necessário é acolher. A experiência mais profunda de sua presença amorosa se faz, como Jesus fez, compartilhando a vida com os mais pobres, com os doentes e com os pecadores. Esta é a cristologia que foi e está sendo descoberta, passo a passo, em nossas comunidades. Ela encontra muita resistência de grupos tradicionais, mas avança lenta e progressivamente.


O compromisso que segue a essa visão não poderia ser outro: o discipulado. Ser discípulo não é ficar “sentado” aos pés do mestre; mas, é caminhar com ele por onde ele anda. Pode-se facilmente imaginar onde anda Jesus de Nazaré em nossos dias! Ele próprio o deixou claro quando falou das obras de misericórdia (cf. Mt 25, 31-46), porém, mais ainda quando foi levado para o Calvário. Bem mais que repetir longas orações com pedidos, o discípulo de Jesus que está com o Pai, agradece sempre de novo por ter sido convidado a segui-lo; renova sempre de novo a disposição de estar com ele por onde for. Assim, o Reino que Jesus implantou continua produzindo frutos, agora e aqui, onde está o discípulo.

Conclusão


A busca de Jesus Cristo, quando é sincera e levada a sério, não pode escapar da pergunta: a que Jesus buscamos? Está mais do que na hora, quando vemos tantas igrejas cristãs, cada um com o “seu Jesus”, tantos católicos com o “seu Jesus”, de encarar a questão. Esse Jesus que todos procuram e que afirmam possuir é de fato o Jesus que andou pelas ruas da Palestina e que foi revelado por Deus como o seu Filho Amado? Quais transformações ele provoca em seus seguidores? E estes, por sua vez, como vivem sua fé na sociedade onde estão? O Reino de justiça e paz está sendo implantado progressivamente, ou os pretensos seguidores dele se isolam nos espaços de seus templos, “só para louvar o Senhor”?


Talvez Jesus esteja bem mais próximo de nós do que pensamos. Mais do que ser possuído por nós ele quer nos possuir. Mas, para que isso aconteça, é preciso descobri-lo na humildade e na simplicidade do irmão sofredor. Lá ele não está escondido, como infelizmente alguns afirmam, mas continua a estender a mão para que a vida seja compartilhada. E, onde há partilha da vida, Deus aí está. Aí ele mostra o Pai e, já não é mais preciso dizer: “mostra-nos o Pai!” Então, a que Jesus buscamos?

Referências bibliográficas

DENZINGER, H. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, São Paulo, Loyola e Paulinas, 2007.
HAIGHT, Roger. O Futuro da Cristologia, São Paulo, Paulinas, 2008.
QUEIRUGA, Andrés Torres. Creio em Deus Pai – O Deus de Jesus como afirmação plena do humano, São Paulo, Paulinas, 1993.
QUEIRUGA, Andrés Torres. Repensar a Cristologia – Sondagens para um novo paradigma, São Paulo, Paulinas, 1998.
[1] Cf. HAIGT, R. O futuro da Cristologia, p. 21.
[2] Cf. DENZINGER, H. Compêndio, 125 e 301.
[3] Interessante notar que na linguagem comum alemã Jesus é denominado Herrgott (Senhor Deus).
[4] HAIGT, R. O futuro da Cristologia, p. 20-21.
[5] QUEIRUGA, A. T. Creio em Deus Pai, p. 96.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TEOLOGIA DA PROSPERIDADE - A HERESIA DOS NOSSOS DIAS

Pe. Mário Fernando Glaab


"Se Deus quiser", é o que mais se ouve quando o assunto é sonhos e desejos das pessoas. Ainda mais quando elas estão em situações complicadas nas quais as forças humanas parecem falhar. Como resolver certas questões que fogem às capacidades materiais, intelectuais e profissionais dos indivíduos? O jeito é apelar para soluções religiosas. Deus pode e deve intervir, pois ele é o todo-poderoso, afirmam. O segredo a ser descoberto não está no poder dele, mas na forma de se chegar melhor a ele, isso é, por meio de que religião ou de quais práticas piedosas; onde funciona melhor tal acesso, ou por onde se chega antes? E, por outro lado, não se tem nenhum escrúpulo em afirmar, quando as coisas não deram certas, quando faltou sorte, que "Deus não quis!" Acidentes, doenças, reprovações em provas, insucessos nos negócios, tudo acontece porque "Deus não quis". Pior ainda, por vezes, quem leva a culpa daquilo que não deu certo é o diabo. Pobre do diabo! - Bode expiatório das incompetências humanas.
Explorando a confiança em Deus, tão enraizada no povo simples de todos os tempos, surge, com forte poder de sedução, a heresia da teologia da prosperidade. Ela não é novidade de nossos dias, mas nos últimos tempos cresceu e assumiu proporções assustadoras. Por sobre os desafios cada vez mais prementes da sociedade atual, ela encontra terreno fértil. É bem mais confortável "confiar" em Deus do que arregaçar as mangas e ir para a luta. Quando, por omissão ou incompetência, não se alcança o esperado, jogar a culpa em Deus ou no diabo, também é mais fácil. Contudo, isso não é somente fruto de uma doutrina mal entendida do costume de rezar para pedir sucesso nos empreendimentos; mas é planejado e ensinado por pegadores interesseiros. Não há dúvida de que já desde o início da era cristã, esse aspecto, por falta de conhecimentos e por interesses estranhos, existiu e persistiu. Basta lembrar os abusos na Idade Média com a venda de indulgências que provocaram a revolta dos reformadores. Em nossos dias, no entanto, o problema está tomando proporções alarmantes.
Tudo parte da concepção de Deus que se tem e que é ensinada, tantas vezes ta distante do Deus bíblico. O Deus que se revela na bíblia, principalmente no Novo Testamento, é o Deus-amor (cf. 1 Jo 4,16). Ele não sabe fazer outra coisa a não ser amar. Ele não pode querer o mal nunca; e nem sequer pode não querer o bem de suas criaturas, especialmente de seus filhos e filhas. Ao ser coerente com a visão bíblica de Deus não se pode admitir que Deus-amor possa "permitir" que o mal aconteça para alguém. O mal existe porque as criaturas são limitadas e, como tal, sujeitas a ele. Os seres humanos provocam-no ao usar inconvenientemente a liberdade, que também é finita. Contudo, o apoio e a graça de Deus estão sempre ao dispor de cada um, sem discriminação. Deus não ama mais um do que o outro, só porque este fez algo de bom; e Deus não deixa de amar alguém porque fez algo errado; isso porque Deus é bom. É sempre bom saber que Deus ama cada ser humano não porque o ser humano é bom, mas porque ele é bom. Deus fez o ser humano bom por ser o Deus de bondade. Este é o núcleo central do anúncio de Jesus de Nazaré. E é essa Boa Nova que precisa ser descoberta sempre de novo. Ela se encontra não em abstrações aéreas, mas no encontro vivo com a pessoa, a história e a vida concreta de Jesus de Nazaré, que hoje se torna possível quando se tem os pés no chão, isso é, quando se experimenta a presença e a ação dele na vida do planeta, principalmente na vida ameaçada dos seres humanos. A vida ameaçada grita mais forte no rosto dos pobres de todos os tipos: pobres de bens materiais, pobres de cultura, pobres de fé, pobres do sentido da vida. Aí é que o anúncio vivo do Evangelho se torna verdade. Verdade que é compromisso de transformação. O Homem de Nazaré está aí, não para com um toque de mágica resolver todos os problemas dos humanos, mas para doar continuamente a sua vida, para que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10). Uma vez de posse dela, partilhá-la entre si, e assim, ajudando-se mutuamente, vencer o mal pelo bem.
Por isso é mais do que urgente redescobrir o verdadeiro Deus bíblico, o Deus de Jesus de Nazaré. Muitos deuses falsos apareceram durante a história. O que muda é a maneira como eles se apresentam. Mas na essência são sempre os mesmos. Para enganar, eles são tentadores: prometem tirar as cruzes dos ombros de seus seguidores, aliciam com promessas de prosperidade, muito sucesso nos negócios e, aliviam as consciências dos faltosos jogando a culpa no diabo. Assim vale a pena viver! Todavia, em sã consciência, pode-se dizer que é esse o Deus revelado em Jesus de Nazaré?
No mundo globalizado onde tudo vale quando dá lucro, onde as leis do comércio ditam as regras, também as religiões são envolvidas no mesmo emaranhado. Se no passado havia abusos que exploravam a fé das pessoas, hoje eles são mais numerosos. Não se teme tomar o nome de Deus em vista de vantagens pessoais ou do grupo. Existem inúmeros os pregadores que literalmente vendem graças, bênçãos e curas, tanto físicas como espirituais. Quanto mais o fiel investe orando e pagando, tanto mais Deus é obrigado a atender. Os diabos são expulsos pela força que o pregador diz possuir – mas não faz uso desse poder sem esperar algo em troca. Contudo, essa prática não se restringe apenas a certos grupos mais exaltados, está presente em quase todas as igrejas. Algumas conseguem camuflar e elevar o nível das pregações, mas não estão livres da visão errada de Deus e da prática religiosa. O que querem é "aproveitar" do desejo de ser bem-sucedido, tão em voga no homem contemporâneo, e assim fazer adeptos e levar vantagens. Como diz um teólogo: "Não obstante as diferenças históricas, as indulgências de ontem e os rituais de prosperidade de hoje tomam como base da operação religiosa o desejo humano de ser bem-sucedido nessa e na outra vida" (João D. Passos). É a teologia da prosperidade que se constitui em heresia, mais perigosa hoje que no passado.
De quem é a culpa? Sem querer apontar um culpado, convidamos à reflexão. Se as igrejas se preocupassem mais em ter suas doutrinas sempre atualizadas, bem explicadas e acessíveis aos fiéis em geral, será que não mudaria muita coisa? Ter consciência, como diz outro teólogo, que "a teologia deve ser viva e estar a serviço da vida, mesmo que para tal tenha de repensar aquilo que outrora era verdade inquestionável" (Silas Guerriero) não ajudaria a evitar tais abusos? Quem sabe, se de fato a teologia se tornasse importante, isso é, fizesse o seu papel de interpretar as coisas deste mundo à luz da fé, dar a elas o seu sentido último em cada época e em cada situação; se os teólogos fizessem o seu trabalho com dedicação e sinceridade, visando a verdade sem interesses próprios; se os pregadores dessem mais atenção aos teólogos; e, se os fiéis não engolissem qualquer pregação, mas se perguntassem sobre sua origem e seriedade, a heresia cairia vertiginosamente.
A heresia da teologia da prosperidade somente será vencida quando cada um e cada uma assumir a sua dignidade e, consequentemente, os seus compromissos. O ser humano é sempre finito e assim se depara com suas limitações. Precisa, no entanto, assumi-las com responsabilidade. Não atribuir a Deus o que cabe a ser humano fazer e, igualmente não culpar a Deus ou ao diabo pelos seus erros e suas limitações.


Referências bibliográficas


PASSOS, João Décio. Ser como Deus: críticas sobre as relações entre religião e mercado, in: BAPTISTA, P. A. N. e SANCHEZ, W.L. Teologia e Sociedade: Relações, dimensões e valores éticos, São Paulo: Paulinas, 2011.
GUERRIERO, Silas. A diversidade cultural como desafio à teologia, in: BAPTISTA, P. A. N. e SANCHEZ, W.L. Teologia e Sociedade: Relações, dimensões e valores éticos, São Paulo: Paulinas, 2011.